sexta-feira, 30 de maio de 2014

ONDE O CINISMO TRIUNFA

“(...) Trata-se de uma práxis às avessas: a anunciação da verdade anula a possibilidade da ação contrária à falsidade. Desse modo, o cínico enxerga através do manto ideológico e permanece pautando-se por ele sem que isso se configure uma contradição performativa, pois a contradição é sua justificativa.(...)” página 19 – do livro RITUAIS DE SOFRIMENTO. Autor: Silvia Viana. 

O que o Estado Brasileiro gasta ANUALMENTE com o Bolsa-Família é pouco mais do que transfere MENSALMENTE ao setor financeiro em forma de juros da dívida pública. 

Os cerca de R$ 20 bilhões de JUROS pagos MENSALMENTE (*) pelo PÚBLICO a poucos PARTICULARES somem na artilharia das cifras, sorridentes aos abastados credores do negócio. Estes, aliás, são os mesmos que recomendam, sempre e sem contraditório, aumento da própria taxa de juros dos quais são beneficiários: a SELIC. Ou você, indignado cidadão com os R$ 8 bilhões gastos nos estádios da Copa, já viu o doutor “Mercado” recomendar queda da taxa SELIC????????????????????????????????????? 

Num tempo em que máscaras caem com uma flechada, cabe indagar: a quem se dirige a crítica e a ação? Mantida a tendência dos embates, a perspectiva é o desperdício de energia transformadora. E talvez, ainda que a contragosto, esta negação infantil da Política e dos políticos, tão cara ao vagalhão (neo)liberal.

Um cenário pelo qual continuará a desfilar o cinismo dos vencedores de sempre. Incólumes à azáfama que estimulam. Invisíveis ao povo que desprezam. Incontáveis as desgraças que rentabilizam. 

 (*) Nota: Em abril de 2014, o estoque da dívida pública estava em R$ 2,052 trilhões (o PIB-2013 foi de R$ 4,84 trilhões). No mesmo mês, foram pagos juros de R$ 19,6 bilhões. O orçamento do Bolsa-Família para o ano de 2014 é de R$ 24,6 bilhões. Fontes: (1) http://oglobo.globo.com/economia/divida-publica-cai-135-soma-2052-trilhoes-em-abril-12618788 (2) http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,dilma-turbina-gasto-social-no-orcamento,1109345,0.htm 

E sob o horror parece permanecer, crescente, o mesmo mecanismo que o forjou. Imiscuindo-se nos horizontes que colocariam em xeque sua lógica insana, o horror se repõe cotidianamente, cada vez mais denso e onipresente, como desejo e escolha de suas próprias vítimas. Eis a impressão que me vem da leitura da professora Silvia Viana (nos primeiros 10,5 minutos do vídeo abaixo) que, a certa altura, anunciando em contagem regressiva a compulsão primeira do nosso tempo, diz: “trabalhar muito para poder continuar trabalhando e tomar cuidado para que os prazos não estourem e manter o currículo atualizado ponto a ponto e aceitar qualquer oportunidade para não perder a oportunidade e certificar-se de que os colegas não percebam a sua exaustão”.  

Num refúgio desta exaustão - capturadas pela velocidade do movimento, posto que cada vez mais aceleradas - estão as batucadas. Esta é a da Nenê de Vila Matilde, em gravação que fiz na Rua Júlio Rinaldi em 06/01/2010. A ameaça da gestão e a gestão da ameaça - expandindo-se para o universo de todas as nossas relações - parecem não ter penetrado integralmente em manifestações cuja ideia e prática são forjadas pelos de baixo. Cercada pelo contexto, mesmo reproduzindo-o até certo ponto; na batucada, a pegada é outra. Tem o Axé necessário para o eterno recomeço. Do contra-ataque. Do contra-argumento. De resto, meu camarada? PAU NO GATO!!!!! 

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