sexta-feira, 4 de abril de 2014

NA HORA DO ALMOÇO

Pusilânimes com poder assistem abobados à construção de um novo “mensalão”. Contrapõem-se lenta e parcamente ao massacre noticioso que, declarando amor ao patrimônio público, comemora como certo o suposto superfaturamento. Para além da questão eleitoral, em meio a tantas controvérsias envolvendo a compra da refinaria de Pasadena pela Petrobrás, proliferam-se no senso comum, via Goebbels, “verdades” convenientes apenas aos graúdos do rentismo - mirantes na privatização do que ainda resta de estatal. Este intento é acompanhado da perene e crescente desqualificação dos democráticos contrapesos a lógica mercantil. Assim, tudo o que se relaciona à arena pública, à Política e à sociedade é mediata e imediatamente vinculado à incompetência, ao desperdício, à corrupção. O debate pende para o moralismo e encontra eco na infantilização da plateia, que se regozija como vítima “desses ladrões”, “dessa roubalheira”, “dessa pouca vergonha”. Com lugar ao sol no ramerrão corporativo, o cidadão de um, dois ou três bens a mais entende de forma cristalina a urgência do aperto de cintos, dos enxugamentos e da economia necessária às contas a serem pagas. Ele tem certeza de que banca a dele, a “desses ladrões” e a “desse povinho ignorante”. “Essa raça”. 
A caminho do escritório, enquanto espera os colegas que foram ao toalete, o cidadão de um, dois ou três bens a mais cantarola, tão desafinado quanto inocente, trecho de uma música que curtiu na adolescência: “(...) não quero ver mais essa gente feia / não quero ver mais os ignorantes / eu quero ver gente da minha terra / eu quero ver gente do meu sangue (...)”
“E aí, vamu nessa?” “Alguém tem que trabalhar, né?” 


E já que estamos nos remetendo ao salve-se-quem-puder ininterrupto, (re)publico entrevista com a professora Silvia Viana. Ela fala sobre seu livro RITUAIS DE SOFRIMENTO. 

Um comentário:

Douglas Germano disse...

e como a plateia está infantilizada...