quinta-feira, 17 de abril de 2014

FUTEBOL: QUANTO MAIOR A FRESCURA, MAIOR A VIOLÊNCIA


Ilustram o texto abaixo os gols e o "clima" deste jogo de meio de campeonato brasileiro. Jogo que tive o privilégio de presenciar 'in loco', numa longínqua 5ª feira,  a partir 21:00 (não das 22:00...)


Do final dos anos 70 ao primeiro quarto dos 90, os públicos presentes  nos grandes clássicos do futebol brasileiro eram incomparavelmente superiores aos atuais. Mais de 100.000 no Morumbi, Maracanã, Fonte Nova, Mineirão  etc. era mato, mesmo em jogos de meio de campeonato. Diferentemente da “civilidade” atual, praticamente tudo era permitido: cerveja, fogos, bandeiras, batuques. O mandante de um Corinthians e São Paulo, de um Vasco x Fluminense não era obrigado a colocar à disposição da torcida adversária  o limite de até 5% da carga total de ingressos. Nããoooo!!!!!!!!!! Santos x Palmeiras, Botafogo x Flamengo e quetais eram, a princípio, 50% a 50%. À torcida que comparecesse em número superior eram concedidos, minutos antes da partida, gomos de arquibancada. O que dividia cruzeirenses de atleticanos, no Mineirão, eram fileiras de policiais segurando e movimentando cordas, de tal modo que fosse possível acomodar melhor os torcedores que, no dia, comparecessem em maior número. Detalhes: 1. já existiam as mesmas torcidas organizadas que hoje existem. 2. os preços dos ingressos eram muito mais acessíveis. 3. por conta dos fatores citados , a grande maioria do público era composta por pessoas humildes, pela massa, pelo povão. 4. quem não podia pagar a arquibancada – que, ao preço de hoje, seria no máximo R$ 15,00 – dava R$ 5,00 para acompanhar o jogo da geral. Pois bem. Na atualidade, extintas as gerais,  vemos o oposto: públicos pequenos e “selecionados”. Fre$cura$ diversas, alastrando-se das cativas e cadeiras para todo o estádio e seu entorno, consumam "a expansão das numeradas", da qual já reclamamos no http://paineldozephir.blogspot.com.br/2013_05_01_archive.html. Dado que, no presente, as ocorrências de violência relacionadas ao ludopédio são bem mais numerosas e letais do que as de outrora, parece-nos plausível concluir que há uma correlação positiva entre a maior “qualificação” do público nos estádios  e os crescentes homicídios e agressões envolvendo clássicos. De nossa parte, é legítimo e pertinente o questionamento da possibilidade lógica que ora apresentamos. Olhando para a outra parte, é irritante o uníssono laudatório às "famílias" e à “gente bonita” que, aproveitando-se da condição de nova maioria nas "arenas", comemoram “o gol de quem, mesmo?”

E como aqui, embora atentos,  não nos aperreamos com novidades, vamos ouvir pela enésima vez Paulo César Pinheiro. Cantando, dele e Mauro Duarte, A PAIXÃO E A JURA.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

NA HORA DO ALMOÇO

Pusilânimes com poder assistem abobados à construção de um novo “mensalão”. Contrapõem-se lenta e parcamente ao massacre noticioso que, declarando amor ao patrimônio público, comemora como certo o suposto superfaturamento. Para além da questão eleitoral, em meio a tantas controvérsias envolvendo a compra da refinaria de Pasadena pela Petrobrás, proliferam-se no senso comum, via Goebbels, “verdades” convenientes apenas aos graúdos do rentismo - mirantes na privatização do que ainda resta de estatal. Este intento é acompanhado da perene e crescente desqualificação dos democráticos contrapesos a lógica mercantil. Assim, tudo o que se relaciona à arena pública, à Política e à sociedade é mediata e imediatamente vinculado à incompetência, ao desperdício, à corrupção. O debate pende para o moralismo e encontra eco na infantilização da plateia, que se regozija como vítima “desses ladrões”, “dessa roubalheira”, “dessa pouca vergonha”. Com lugar ao sol no ramerrão corporativo, o cidadão de um, dois ou três bens a mais entende de forma cristalina a urgência do aperto de cintos, dos enxugamentos e da economia necessária às contas a serem pagas. Ele tem certeza de que banca a dele, a “desses ladrões” e a “desse povinho ignorante”. “Essa raça”. 
A caminho do escritório, enquanto espera os colegas que foram ao toalete, o cidadão de um, dois ou três bens a mais cantarola, tão desafinado quanto inocente, trecho de uma música que curtiu na adolescência: “(...) não quero ver mais essa gente feia / não quero ver mais os ignorantes / eu quero ver gente da minha terra / eu quero ver gente do meu sangue (...)”
“E aí, vamu nessa?” “Alguém tem que trabalhar, né?” 


E já que estamos nos remetendo ao salve-se-quem-puder ininterrupto, (re)publico entrevista com a professora Silvia Viana. Ela fala sobre seu livro RITUAIS DE SOFRIMENTO.