domingo, 8 de setembro de 2013

CORDÃO, de Adriana Moreira

















CORDÃO, de Adriana Moreira, é a concretização luminar de uma ideia agregadora. Desfile sem divisas a revelar as alegrias e agonias de toda gente, em voz que lhes dão unidade. Pensamento e coração vertidos a um sentimento do Brasil. Timbre e gesto de ancestrais imortalizados na cultura.  Expressão singular de um pertencimento que reconhece os seus na lágrima rolada ao soar do apito; na vibração, ao toque do surdo;  na voz embargada, perante a tristeza e a felicidade. Vertigem e paz. Amores e orixás.
Após Direito de Sambar – referência a quem se debruce sobre a música do genial compositor Batatinha – Adriana Moreira nos oferece neste CORDÃO um mosaico de sua vivência no ofício de cantar. Dá seu brilho a trabalhos de nomes consagrados – Romildo e Toninho, Gonzaguinha, Baden Powell, Chico Buarque, Eduardo Gudin, Paulo César Pinheiro, Nelson Cavaquinho, Maurício Tapajós, Hermínio Bello de Carvalho, Guilherme de Brito, João Nogueira, Pixinguinha, Clementina de Jesus, Gastão Vianna, Maurício Carrilho e Carlinhos Vergueiro – sem cair nas armadilhas de releituras que mais distorcem os originais do que os alçam à posteridade.  
CORDÃO rompe as barreiras de certa estética que privilegia a técnica pela técnica. Colide com um gosto que despreza a vida, a transpiração.  Assume o clamor do canto com o pulsar da batucada. Aqui, não se acha feio o que é bonito. A direção de Júnior Pita soube captar a força que a presença  de Adriana Moreira pede. No essencial, as referências do choro e do samba. Além, a linguagem própria. A precisão e “ o chão da rua”.
Nesse percurso,  CORDÃO se abre às inéditas. À Barra Funda de Renato Fontes, Thiago Monteiro e Milton Conceição. Ao Machado de Xangô, de Roberto Didio e Renato Martins. À vontade de ver “esse mundo mudar”, de Douglas Germano e Antonio Carlos Moreira. Aos adoráveis cuidados da baiana, iluminados por Reginaldo Souza.   É aqui que CORDÃO, desprendendo-se das paredes de barro ou das cordas de outros blocos, arrisca-se mais. Reúne olhares de gerações e grupamentos distintos, até distantes, mas que pensam e sentem o Brasil e sua gente com uma harmonia que só a voz e a visão de Adriana Moreira podem dar.

Everaldo Efe Silva
Vila Matilde, 02 de dezembro de 2012

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