quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

"OS TRÊS DIAS SÃO QUATRO" ou "SÓ UMA PLANTA DÁ SARDINHA EM LATA EM PLENA BEIRA DE MAR: É COQUEIRO!"

















A seguir, um trecho da crônica NÓS, OS FOLIÕES. Da autoria de FERNANDO SZEGERI, esse texto é o mais belo e prazeroso que li sobre o Carnaval. Dedico-o especialmente aos encruados. Esses, para demonstrarem a superioridade que pensam ter, falam de uma essência que ignoram e, como fecho de ouro de sua sabedoria de fachada, divulgam a tendenciosa e amarga fala da apresentadora Raquel Sherazade que, pelo mau humor, surpreende-me estar na adorável e bela Paraíba. O afetado discurso da moça parece-me próprio dessas paulistanas (e paulistanos) de classe mérdia, especialmente os tecnoburocratas das firmas, que vivem reclamando de barriga cheia e arrotando "horror" ao carnaval e a tudo que dialoga com o universo popular. Você, caro leitor, se ainda não recebeu, receberá de algum encruado o vídeo "A verdade oculta do carnaval" e constatará a tendenciosa afetação reacionária da cidadã (e de seu colega). Mas não, meu querido e minha querida: pega um copo ali no balcão para compartilharmos a cerveja, que eu espero fumando você ler essas belas palavras do Fernando.

“(...) O folião, na quinta, sexta-feira que precedem os dias de Carnaval, encara as pessoas na rua, no ônibus, com uma acachapante superioridade. Tem pena de seu patrão, despreza o seu senhorio. Ele sabe, no íntimo, que a cidade lhe pertence, que as coisas na verdade não são como parecem na maioria dos dias; que a superioridade que o capataz lhe cospe reiteradamente às faces è uma ilusão que lhe custará caro. São chegados os dias em que tudo assume a sua feição verdadeira, em que as máscaras cinzentas que foram impostas à realidade são impiedosamente arrancadas. Essa efêmera, mas irrefutável prova sobre o verdadeiro estatuto das coisas lhe propicia um inexprimível sentimento duplo de superioridade: por ter consciência desta realidade e por saber-se o senhor livre e soberano de seu próprio destino. 

É por isso que ao folião repugnam as pessoas que simplesmente ignoram o Carnaval. Não as que o odeiam. Ele compreende que para os que se arvoram em donos das coisas e dos destinos nos outros trezentos e sessenta e um dias, a visão crua da realidade absolutamente diversa lhes seja insuportável. Aos que francamente detestam o Carnaval o folião responde com um sorriso de aviso: não tentem interferir no desvelamento essencial desses dias; contenham-se nos limites de sua mentira. Mas aos que ignoram o Carnaval, que estampam em suas faces lânguidas e mortas a sua estupidez indiferente, o folião devota, muito mais que piedade, um ódio secreto, um desprezo absoluto pela incapacidade de exercerem um atributo tão fundamental e tão simples de sua humanidade. 

E enfim é chegada a hora, uma vez mais, de arrastarmos pelas ruas nossas solidões, do esforço – a cada ano maior – em disfarçar a lágrima sob a máscara. Os joelhos, mais cansados, de novo terão de suportar meu corpo, mais gordo e mais pesado, de um fardo de dores e tristezas e medos. As sapatilhas ainda mais rotas, de tanta lama de tanta estrada, sofrerão novamente para me conduzir por uma jornada errante à procura do que a gente toda julga evidente, mas, em verdade, a cada dia mais se esgueira pelas vielas estreitas e becos recônditos. 

Porque o Carnaval, senhores, não é isso que está aí jazendo sob os olhos. Por mais que nos regozijemos, por tanto que nos tenhamos para isso empenhado, não é possível nos deixarmos enganar tão facilmente! Assim eles querem, assim eles agem. Querem nos fazer crer que vencemos, que se renderam; que as ruas tomadas de gente e de música são a coroa da nossa vitória. Mas posso eu acreditar num Carnaval que não seja negação? Que se tenha sob tantas formas oficializado, vá lá! Transformou-se, aqui e ali, em coisas outras que guardam, indiscutivelmente, parte da beleza e força de sua origem popular, a despeito de não serem mais o Grande Carnaval! Este, ao contrário, continua tendo o poder imenso e perfeitamente ordenado (de uma ordem outra, por certo) de transformar e subverter. E por isso não se deixa colher em qualquer esquina repleta de barulho e animação. Refugia-se nos pequenos gestos de gentileza, na cumplicidade dançante, nos sorrisos envelhecidos. (....)” 

Digitado do maravilhoso livro OUTONO DO MEU TEMPO, de Fernando Szegeri, publicado agora em dezembro de 2012.

2 comentários:

Fernando Szegeri disse...

Obrigado, Seo Ferrera...

Everaldo F. Silva disse...

Obrigado você, Fernando! Abração!