quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"Um disco de quatro protagonistas"

                                   Froés,Cabral, Kiko e Campos por José de Holanda

por LUCAS NOBILE - n'O Estado de S.Paulo
fonte:http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,um-disco-de-quatro-protagonistas,795930,0.htm

Quando, na virada da década de 1970 para a de 1980, João Nogueira e Paulo César Pinheiro vaticinaram que "ninguém faz samba só porque prefere, força nenhuma no mundo interfere sobre o poder da criação", no disco Na Boca do Povo, sabiam mais do que ninguém o que estavam dizendo. Porém, como a própria história conta, houve um longo período em que a inspiração era tolhida e os artistas tinham de se submeter às imposições das grandes gravadoras para atenderem a fórmulas massificadas da indústria cultural.
Há alguns anos, com o declínio das majors, quem ganha é a música brasileira, com artistas independentes totalmente livres de amarras para criar. Nesta linha, seguindo a enxurrada de discos antológicos apresentados este ano, Romulo Fróes, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci e Marcelo Cabral lançam hoje, gratuitamente, na internet, o primeiro álbum de seu projeto coletivo, o Passo Torto. Na rede, o disco chega completo, com todos os temas, encarte, ficha técnica e arte gráfica caprichada e assinada por Kiko Dinucci. Em breve, o trabalho sai em CD físico e já tem show marcado para 24, no Sesc Vila Mariana.

O álbum, sadiamente inclassificável por abarcar um balaio sortido de gêneros, estilos, texturas e diferentes percepções estéticas, surgiu da maneira mais espontânea possível. Todos os integrantes do projeto se conhecem de longa data e já participavam dos trabalhos individuais de cada um. "A característica mais óbvia do disco é essa coisa colaborativa. O Cabral toca no trabalho individual dos três, eu toco guitarra na banda do Rodrigo, que toca cavaquinho com o Romulo. O que acontece com a gente é diferente de trampo de músico, em que o cara toca e vai embora. Tem o lance da vivência. Isso transparece na música de um jeito espontâneo", comenta Kiko.

O pontapé inicial para o Passo Torto foi dado de forma despretensiosa, na Casa de Francisca. Na ocasião, Romulo fez um show com Rodrigo e Kiko naquele espaço, cada um mostrando seus temas e de outros compositores, como Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini. Romulo e Rodrigo já tinham feito três parcerias, que entraram no disco do primeiro, Um Labirinto em Cada Pé. Havia um tema restante e decidiram mandar para Kiko entrar na composição. Foi ali que Romulo sugeriu que os três não fizessem juntos apenas uma música, mas um disco. "Não pode dar nenhuma ideia para os caras que já surge um disco. Você faz um ré menor e... Opa, vamos fazer um disco", brinca Marcelo Cabral.

A ideia inicial era a de ter uma formação com Romulo (voz e violão), Rodrigo (voz, cavaquinho e violão) e Kiko (voz e violão). "Gravamos uma pré (demo) e o Maurício Tagliari, que produziu o disco com a gente, achou que faltava um baixo para organizar melhor as ideias", conta Romulo sobre a entrada definitiva de Cabral no projeto. "O Cabral foi determinante. Eu e o Kiko ficávamos meio livres, cada hora cada um fazia uma coisa. Ele chegou e ajudou a gente a ter uma delimitação, no melhor sentido, de escolher as melhores ideias", explica Rodrigo.

Arranjos e percussão. Levando-se em conta que os quatro integrantes do Passo Torto participam dos discos individuais de cada um, o primeiro trabalho do grupo corria o risco de soar como o álbum de algum deles tendo os outros três como figurantes. Definitivamente, não é o que ocorre. Como todos eles são em sua essência criadores - incluindo Cabral, que não assina nenhum tema do disco, mas tem se dedicado mais à composição -, o resultado apresentado pelo Passo Torto é um disco de quatro protagonistas.

O momento de cada um se sobressair dentro de uma composição é absolutamente natural, já que o disco não conta com arranjos escritos. Os instrumentos soam ao mesmo tempo estanques e amalgamados. É possível ouvir com clareza e entrelaçados o violão peculiar e percussivo de Kiko, o cavaquinho melodioso e repicado de Rodrigo e o baixo acústico de Cabral - ora com arco, ora dedilhado - sincopado ou na construção de climões. Pela formação, pode-se pensar que a percussão fará falta, mas, como o próprio nome do grupo sugere, escapando do óbvio, eles escrevem novo capítulo para seus instrumentos e dão conta do recado. "A gente fez um show com sax e bateria. Serviu pra gente ver que a formação, pela proposta do projeto, tinha de ser essa atual", explica Romulo.

O disco mescla facetas de Romulo, Rodrigo e Kiko, com novidades, como, por exemplo, o fato de o primeiro ter escrito uma letra para a obscura A Música da Mulher Morta, proposta por Kiko. Em todo o disco, cada um deles aflorou uma nova qualidade. Kiko fez, por exemplo, a doce Por Causa Dela, se adequando mais ao lado melodioso de Romulo. Há espaço para a crônica cotidiana e urbana de Rodrigo e Kiko em Samuel e Faria Lima Pra Cá, e do primeiro com Romulo, em Da Vila Guilherme Até o Imirim - cuja primeira frase melódica lembra muito o tema Muro, de Romulo. Deste, novamente observa-se a característica de músicas que pedem versos imagéticos, como Detalhe Azul, É Mesmo Assim e Cidadão. Enfim, entre a tradição e o moderno, Passo Torto já nasce atemporal e indelével.

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