terça-feira, 8 de novembro de 2011

A liberdade de omissão defendida pela grande mídia e a ocupação da reitoria da USP

A grande mídia - esta mesma que concentra em não mais que uma dezena de famílias riquíssimas o controle de jornais, rádios e TVs - está se esbaldando em parcialidade e cinismo na cobertura da ocupação da USP nesses últimos dias. Utilizando-se de artifícios grotescos - dentre os quais a deliberada omissão de outras vozes que não as das autoridades policiais - rádios, tvs e jornalões criminalizam a contestação da presença da PM na Universidade Pública. Fazendo vista grossa  à autonomia universitária, âncoras afilhados à visão patronal da comunicação passam a idéia de que os estudantes querem a USP como território livre para o consumo de maconha. Esta seria uma abordagem moralista se não fosse canalha.  Algum veículo da grande imprensa procurou mostrar, sem estigmatização, os argumentos que estavam realmente em jogo quando houve assembléia pela desocupação da FFLCH-USP? Não. Algum sapiente comentarista de rádio - leitor ATENTO dos e-mails  de um só lado mas  IRÔNICO e CÍNICO dos raros dissonantes - apresentou as alegações dos que contestam a presença da PM no campus? Não.
Neste 'post' não faço nada de novo, apenas reproduzo a dissonância. Tal procedimento não é tão velho, porém, quanto a prática daqueles que, proclamando-se porta-vozes da liberdade, estiveram sempre ao lado do arbítrio dos donos. Duvidam, meus poucos leitores? Então vejam as manchetes dos jornalões em 02 de abril de 1964, dia seguinte após o golpe civil-militar cujas funestas consequências vivemos até hoje.

Os textos abaixo foram retirados do excelente www.viomundo.com.br, de Luiz Carlos Azenha.

Ricardo Maciel: Abusos da PM nas ruas se reproduzem na USP
por Conceição Lemes
No dia 27 de outubro, quinta-feira, por volta das 18h, a Polícia Militar deteve três alunos que fumavam maconha num gramado junto ao estacionamento que divide os prédios de Geografia e História da USP, na Cidade Universitária.
Um grupo de estudantes começou a protestar, para evitar as prisões. A manifestação foi ganhando adesões – chegou a cerca de 500 — e a tensão aumentando. Os PMS chamaram reforço. Por volta das 21h30 estavam na USP cerca de 15 viaturas, a Ronda Ostensiva Com Apoio de Motocicletas (ROCAM) e aproximadamente 40 policiais militares.
Após quase quatro horas de discussão entre representantes da polícia, estudantes e professores, começou o tumulto. Segundo alguns relatos publicados na mídia, os estudantes gritavam palavras e xingamentos contra a presença da polícia. Irritados, os policiais partiram pra cima do grupo. De acordo com outros relatos, também divulgados na mídia, quando policiais deixavam o local com os três jovens detidos rumo à delegacia, um grupo cercou as viaturas, jogando pedras e outros objetos. A polícia reagiu violentamente, com bombas de gás lacrimogêneo, gás pimenta e cassetete.
“A visão que a grande mídia criou em torno dos acontecimentos do dia 27 é a de que os estudantes da USP invocam a autonomia para poder continuar fazendo uso de seus baseados, recebendo um tratamento distinto do restante da população. Não, não é isso”, adverte Ricardo Maciel. “Na verdade, o aconteceu naquela noite foi o estopim de um rastilho de pólvora que a própria PM armou no campus desde cedo.”
Ricardo Maciel foi aluno de Letras da FFCLH da USP até 2010. No momento, se prepara para fazer mestrado. Como tem muitos amigos lá, foi até a Cidade Universitária apurar o que realmente havia acontecido. O que ele relatou, eu já tinha lido alguma coisa aqui, outra ali. Mas não de forma objetiva. Daí esta entrevista.
Viomundo – Qual a finalidade da PM no campus?
Ricardo Maciel – É dito que a PM está lá para prevenir assaltos, furtos e, principalmente, proteger a vida. Eu acho que o intuito é outro: é apenas repressor.
Viomundo — Por quê?
Ricardo Maciel –Na quinta-feira, logo pela manhã policiais militares estavam revistando estudantes, professores, funcionários, enfim, usuários em geral da Universidade. Muitos foram abordados na porta de suas faculdades e obrigados a apresentar documentos, abrir bolsas e mochilas, etc. Isso gerou descontentamento muito grande, que foi crescendo ao longo dia. De maneira que a própria PM armou o rastilho de pólvora. O episódio da noite só foi o estopim.
Entre estudantes, funcionários e professores há a certeza de que existem policiais do serviço reservado infiltrados na comunidade universitária. Isso me fez relembrar aquele policial à paisana que foi flagrado em frente ao Palácio dos Bandeirantes, quando carregava uma PM, inicialmente tomado como professor, posteriormente teve sua identidade real informada pela própria PM. Ou seja, tratava-se de um policial que estava infiltrado no meio dos professores da rede pública paulista.
Viomundo – Esse tipo de abordagem pela PM já tinha acontecido antes na USP?
Ricardo Maciel – Infelizmente, sim. Os abusos policiais cometidos pela PM nas ruas se reproduzem dentro da USP. Pessoas são revistadas aleatoriamente, e nem estamos num estado de sítio para que isso fosse normal e permitido. Há PMs que escondem a identificação e quando questionados sobre o fato agridem que os interpela — isso aconteceu na quinta-feira, 27 de outubro! Partem para grosserias e ironias no momento das abordagens.
Em síntese, além de uma PM despreparada para lidar com o público universitário, ela age como se não estivesse lá para proteger a vida, mas para deliberadamente implementar ações contra consumo de drogas, espionagem de atividades políticas e repressão a elas.
Viomundo – O professor Souto Maior já alertou para o fato de que a intransigência da Reitoria da USP em dialogar pode promover um massacre. Você acha isso possível?
Ricardo Maciel -- Tem-se na USP, neste momento, o caldo necessário para mais uma crônica de uma morte anunciada. Os mesmos crimes que a PM comete impunemente nas ruas, a rigor não estão isentos de acontecer dentro da USP. Não por acaso constatei que os alunos que escondiam o rosto na ocupação do Prédio da Administração da FFLCH e agora no prédio da Reitoria o fazem menos por medo de punições no âmbito da Universidade e mais pelo receio de retaliações da PM.
Viomundo – Você acha que a sociedade está informada do que realmente está acontecendo na USP?
Ricardo Maciel – Não. A visão que a grande mídia criou em torno dos acontecimentos do dia 27 é a de que os estudantes da USP invocam a autonomia para poder continuar fazendo uso de seus baseados, recebendo um tratamento distinto do restante da população. Não, não é isso.
Para maioria dos estudantes, a questão da autonomia se coloca noutros termos, eu diria que ela vai além deste ponto. No slogan ‘Fora PM’ usado pelos meus colegas está implícita a rejeição contra uma polícia despreparada e com protocolos além daqueles declarados por ela e, principalmente, está implícita a rejeição à existência de uma Polícia Militar, que na sua origem foi criada para reprimir movimentos sociais e políticos, coisa que ela faz até hoje com violência desmedida e de forma impune.
Assim, ela é uma excrescência e precisa ser reformulada.
Viomundo – Quais as bandeiras dos seus colegas?
Ricardo Maciel – Defesa do espírito crítico da Universidade e da sua autonomia, que são ameaçados por essa polícia despreparada e com intenções não declaradas dentro da USP. Mas fundamentalmente eles levantam a bandeira da luta por uma outra polícia, não militarizada e treinada para defender a vida, respeitar a pessoa independente de sua cor, renda e posição social.
Viomundo – Há outras bandeiras na atual manifestação estudantil?
Ricardo Maciel — Outra demanda é a democratização da USP, que é sabidamente a Universidade pública mais conservadora do país.
Tanto que o desejo de participar e dialogar sobre os caminhos da Universidade sempre bate numa parede. Isso leva os estudantes a colocar suas pautas fora dos espaços institucionais, já que estes só dão voz e poder de participação no processo decisório para uma parcela ínfima da comunidade universitária que, não por acaso, é a mesma há anos.
Nesse diapasão, os conflitos na USP tendem a se repetir. E sinceramente acho bom que eles se instalem ano após ano, pois só assim conseguimos minimamente levantar o debate sobre questões cruciais à Universidade e ao seu caráter público, já que de outro modo não se debate nada.
Se o Brasil renovou sua Constituição em 1988, a USP continua debruçada sobre uma estrutura de poder anacrônica, apoiada num Estatuto cheio de ranços que remontam à ditadura militar. Lamentavelmente, fora dos movimentos estudantil e sindical e de alguns poucos e abnegados professores, o que temos na principal universidade do país é um cemitério quando o assunto é refletir sobre o próprio fazer e a universidade.
A propósito, o governador Geraldo Alckmin, ao comentar o que está se passando na USP, disse que ninguém está acima da lei. Pois eu gostaria de lembrá-lo que a PM também não está acima da lei, mas age como se estivesse ao não usar identificação, ao abordar qualquer um quando bem entende, ao cometer os abusos que vemos todos os dias nos jornais sem que nada lhe aconteça.
Viomundo – Seus colegas estão sofrendo uma condenação moral por parte de alguns segmentos. O que você acha disso?
Ricardo Maciel — Uma covardia. Podemos até não concordar com os métodos ou com a oportunidade ou não do momento, mas não podemos dizer que não compreendemos suas razões. Afinal de contas, eles fizeram alguma coisa, não ficaram bovinamente esperando por promessas que nunca irão se cumprir.
Que a sociedade em geral se deixe enganar pela velha mídia que procura falar da maconha para desviar o foco do que realmente está em jogo, tudo bem, já é esperado. O estarrecedor é que existam pessoas na Universidade horrorizadas com uma porta quebrada ou uma bituca de baseado, sem se atentar para o principal. É uma hipocrisia. É como se olhassem apenas pro próprio umbigo, nada mais.
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8 de novembro de 2011 às 18:39
Estudantes denunciam “intervenção militar” no campus
Nota à imprensa do CAF (Centro Acadêmico da Filosofia) e CEUPES (Centro Universitário de Pesquisas e Estudos Sociais – Centro Acadêmico de Ciências Sociais)
Na madrugada do dia 8 de novembro de 2011, a Polícia Militar entrou novamente no campus da Universidade de São Paulo e realizou a reintegração de posse do prédio da reitoria, ocupado por estudantes desde o dia primeiro de novembro.
A operação começou com o cerco da área da reitoria e do perímetro da moradia estudantil (CRUSP). Entre quatro e cinco da manhã, os moradores acordaram com o som e as luzes dos helicópteros. A partir desse momento, aqueles que tentaram sair foram impedidos por cordões de isolamento e bombas de gás lacrimogêneo.
Em regime de exceção, os alunos foram sitiados em suas próprias moradias e tiveram seu direito de ir e vir suspenso. Alunos foram então impedidos de ir às aulas, e aqueles que trabalham sequer puderam dirigir-se ao ponto de ônibus.
Ao mesmo tempo, efetivos da PM, Tropas de Choque, GATE, GOE e Cavalaria, fortemente armados e auxiliados por helicópteros, entraram na reitoria e prenderam cerca de 70 alunos que foram deslocados para a 91a delegacia de polícia na Vila Leopoldina. Esses estudantes poderão responder por três crimes: desobediência à ordem judicial, crime ambiental e depredação do patrimônio público. Aventa-se ainda a possibilidade de enquadrá-los por formação de quadrilha.
Os procedimentos da reintegração foram feitos sem a presença de nenhuma autoridade da universidade, a despeito da formação de uma comissão de professores da Associação dos Docentes da USP (Adusp) responsável pelo acompanhamento da reintegração de posse, de modo que informações sobre danos, presença de objetos suspeitos, atos de vandalismo e abuso de poder não puderam ser averiguados.
Parte dos efetivos da tropa de choque ainda permanece em frente à reitoria. Outras unidades seguem rondando e vigiando o campus.
O número ostensivo de policiais e o uso da violência face ao número de estudantes que participavam da ocupação é desproporcional ao uso habitual de força em outras reintegrações relacionadas ao movimento estudantil, e constitui evento inédito no interior da Universidade.
Porém, é importante sublinhar que se trata de um procedimento comum da polícia em relação a movimentos sociais, revelando a incapacidade do Estado para abrir vias de reconhecimento de demandas sociais. A USP não constitui uma exceção à regra.
No âmbito da USP, esta intervenção militar assume um sentido ainda mais grave porque se soma a outras medidas repressivas, notadamente as perseguições políticas que vêm ocorrendo nos últimos anos. No momento, mais de 40 estudantes estão sendo ameaçados de expulsão definitiva da Universidade com base em um regimento disciplinar de 1972, escrito pelo ex-reitor da USP Luiz Antônio da Gama e Silva, também autor do Ato Inconstitucional Nº 5.
À luz desses acontecimentos, perguntamos: qual o real intuito de fazer tamanho uso de força policial para intermediar conflitos políticos dentro de uma instituição que tem como princípio a troca e produção de conhecimentos e o diálogo?

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8 de novembro de 2011 às 15:00
Mário Maestri: Pela volta da Idade Média à USP
por Mário Maestri, sugestão do professor Caio Toledo
Na Idade Média, era uma enorme conquista quando uma cidade obtinha uma universidade. Comumente, com ela, vinha o direito a uma ampla autonomia quando à autocracia do príncipe. Tratava-se de liberdade considerada indispensável para o novo templo do saber. Devido a isso, o campus universitário medieval possuía sua polícia própria e julgava seus alunos, funcionários, professores.
Aprendi isso, no curso de História da UCL, na Bélgica, onde fui recebido de braços abertos, em 1974, fugido da ditadura brasileira e chilena. No Brasil de então, não tinha nada daquilo. A polícia e o exército entravam, revistavam, espancavam, prendiam, torturavam e, até mesmo, matavam professores, funcionários e sobretudo alunos que não se rendiam ao tacão da ditadura cívico-militar.
Uma aluna sul-rio-grandense, mestranda em História da USP, escreveu-me um longo e-mail, pedindo-me quase desesperada solidariedade para com ela e seus colegas daquela universidade.
A carta da estudante registra a angústia de jovens que se assustam com a regressão dos espaços de liberdade conquistados quando da versão de redemocratização brasileira, onde os criminosos civis e militares de 1964-1985 seguiram em seus postos ou com suas pensões e aposentadorias, homenageados com nomes de praças, avenidas, ruas, ao morrerem.
A aluna relata a degradação das condições de convivência, de trabalho e de estudo naquela instituição, a mais destacada do Brasil.
Lembra que há muito se instauram processos administrativos contra alunos, funcionários e professores, eventuais motivos de demissão e de expulsão, por expressarem em manifestos, panfletos, ocupações, etc. suas idéias contra a política universitária dos governadores de São Paulo e dos dirigentes máximos daquela instituição.
Há cerca de dois meses, lembra a jovem, o senhor reitor lançou pelo retrete a autonomia universitária e escancarou o campus à Polícia Militar, sub a justificativa de reprimir a criminalidade.
Desde então, a Polícia Militar reina no campus - abordando, inquirindo, revistando funcionários, professores e sobretudo alunos. Certamente os principais objetos desses atos de intimidação são os alunos e alunas mais agitados ou de cabelo, roupas, adereços e comportamentos tidos como estranhos!
Conhecemos o resultado da política liberticida do senhor reitor – em 27 de outubro, alunos foram revistados por policiais militares, como sempre, na frente da Biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, onde se reúnem, tradicionalmente, os universitários suspeitos de pensarem em demasia!
A revista deu resultado. Três estudantes de Geografia foram encontrados com alguns baseados, motivos de pronta prisão e imediata resposta dos seus colegas, todos pertinentemente surrados, pois universitárias e universitários comumente magricelos, armados com canetas, livros e laptops, pouco podem contra os parrudos PM, com os seus tradicionais instrumento de trabalho – cassetetes, revólveres, escopetas, bombas dissuasivas ...
A resposta previsível dos estudantes foi uma festa para a grande mídia conservadora, sobretudo televisiva. A ocupação do prédio da FFLCH e depois da Reitoria, por estudantes encapuzados – ninguém quer ser objeto de processo e eventual expulsão – foi mostrada como a ação de bárbaros desordeiros no templo do conhecimento!
Isolada, sob o silêncio dos grandes e pequenos partidos, a garotada está sendo obrigada a retroceder. Até segunda-feira, tem que entregar o prédio. Se não, vão conhecer pancadaria grande, prisões e os pertinentes processos. Não conseguem, nem mesmo, apresentar suas mais do que justas reivindicações: fins dos processos contra estudantes e servidores e a interdição do Campus à Polícia Militar.
Por razões óbvias não registro o nome da autora da carta. Com minha total solidariedade ao movimento, faço uma derradeira reflexão. Se, na Idade Média, um senhor reitor atirasse pela janela do seu palácio a valiosa autonomia conquistada pela cidade, chamando a polícia para atuar livremente no campus, certamente seria destituído por seus pares e, possivelmente, mandado para a masmorra da Universidade, para refletir melhor sobre sua vontade de subserviência ao príncipe! Coisas da Idade Média.
Mário Maestri, é doutor em Ciências Históricas pela UCL, Bélgica, e professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS. E-mail: maestri@via-rs.net

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