sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A face do "mercado" diante da Política

Cínico o tom de denúncia que as grandes rádios, TVs e impressos fizeram ao corte de meio ponto da taxa de juros SELIC. De 12,5% ao ano, a taxa foi  para 12,0%, após a reunião de agosto do Comitê de Política Monetária do Banco Central. Agora, como antes, a taxa de juros brasileira continua sendo a maior do mundo. Cerca de 1/3 da dívida pública interna, da ordem de 1,7 trilhões de Reais, é atrelada a esta taxa. Os bancos – que são os maiores emprestadores de dinheiro ao Estado – abocanharão, em 2012, mais de 114 bilhões de reais somente com os juros desta dívida.  A mídia vê razões puramente "técnicas" nos níveis estratosféricos das taxas de juros. O aumento da  SELIC reduziria a inflação por dois motivos: como referência de outras taxas, pressionaria alta adicional nos já escorchantes crediários, por um lado;  reduziria a quantidade de moeda, por outro. O efeito combinado seria a menor procura por bens para uma mesma oferta, forçando a queda dos preços ao consumidor. Isso é correto quando não há empresas que repassam seu poder de monopólio para os preços, quando não há lucros abusivos, nem setores que mantém ou elevam suas margens após a elevação do custo financeiro causada, em última instância, pelas mesmas taxas de juros. Como se não bastasse a necessidade de se questionar a eficácia do aumento da SELIC como único remédio no combate à inflação brasileira, faltou, como sempre, explicitar ordens de grandeza. Faltou dizer, por exemplo, que o impacto na Seguridade Social do aumento do salário mínimo previsto para 2012 será de  R$ 13,3 bilhões, enquanto que os juros ‘técnicos’ – tão aguardados por meia dúzia de frescos que nunca foram à Praça da Sé nem desconfiam onde fica a Vila Dirce, são esses aí a quem chamam de "mercado" – esterilizarão R$ 114 bilhões – repito, R$ 114 bilhões – do orçamento. Interessante:  o que beneficia a minoria da minoria é tido como algo científico, ‘técnico’; mas o que ameniza a dificuldade de milhões, como o aumento do salário mínimo, é escandalizado como ‘populista’, como ameaça, como ‘política”. Ora, o ‘populista’ é pouco mais de 10% do ‘técnico’. Essa distorção atinge o ápice quando se “denuncia” que a maior autoridade da nação – a presidência da república – teria  exercido pressão ‘política’ sobre o banco público da república– o banco central – para  que este reduzisse a taxa de juros. Ora, não seria precisamente esta uma das prerrogativas essenciais de quem recebeu a maioria dos votos de milhões de brasileiros?!? Na TV, jamais fazem cara de nojinho  nem discursos contra a carga tributária quando é “o mercado” quem enche o rabo de dinheiro público, com o aumento da SELIC. Mas basta uma greve dos funcionários do serviço funerário - que recebem há 15 anos cerca de R$ 600,00/mês -  para os almofadinhas de sempre aparecerem do alto de suas tamancas exigindo prudência e ciência. É a Política a instância que se contrapõe à perversidade  da economia. Graças aos interesses em conflito,  ao voto, ao congresso, aos sindicatos e aos movimentos sociais que se fazem valer as demandas de quem não está do lado da banca. Superficiais denúncias de corrupção  -produzidas vorazmente pela grande imprensa - servem ao descrédito da Política que, se não tem se caracterizado pelo predomínio do espírito público, ao menos  restringe os impulsos egoísticos do “mercado”. Instalar o clima do “mar de lama” é  a bandeira da Direita - nojenta, assustada, apelando e com medo.

Um comentário:

Pedro Pita disse...

Muito bom,Zéphir. Apoiadíssimo!
abs