quarta-feira, 28 de setembro de 2011

OS ESCRAVISTAS CONTRA LULA - texto de Martín Granovsky

Podem pronunciar “sians po”. É, mais ou menos, a fonética de “sciences politiques”. E dizer Sciences Po basta para referir o encaixe perfeito de duas estruturas: a Fundação nacional de Ciências Políticas da França e o Instituto de Estudos Políticos de Paris. Não é difícil pronunciar “sians po”. O difícil é entender, a esta altura do século XXI, como as ideias escravocratas seguem permeando os integrantes das elites sul-americanas. Na tarde desta terça, Richar Descoings, diretor da Sciences Po, entregará pela primeira vez o doutorado Honoris Causa a um latino-americano: o ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Descoings falará e, é claro, Lula também.

Para explicar bem sua iniciativa, o diretor convocou uma reunião em seu escritório na rua Saint Guillaume, muito perto da igreja de Saint Germain des Pres. Meter-se na cozinha sempre é interessante. Se alguém passa por Paris para participar como expositor de duas atividades acadêmicas, uma sobre a situação política argentina e outra sobre as relações entre Argentina e Brasil, não está mal que se meta na cozinha de Sciences Po.
         Lula recebendo ontem título de doutor honoris causa da Sciences Po-Paris
  Comemoro orgulhoso: CHUPA, IMPRENSINHA! CHUPA, ELITIZINHA DE MERDA!

Pareceu o mesmo à historiadora Diana Quattrocchi Woisson, que dirige em Paris o Observatório sobre a Argentina Contemporânea, é diretora do Instituto das Américas e foi quem teve a ideia de organizar as duas atividades acadêmicas sobre a Argentina e o Brasil, das quais também participou o economista e historiador Mario Rapoport, um dos fundadores do Plano Fênix há dez anos.

Naturalmente, para escutar Descoings foram citados vários colegas brasileiros. O professor Descoings quis ser amável e didático. Sciences Po tem uma cátedra de Mercosul, os estudantes brasileiros vão cada vez mais para a França, Lula não saiu da elite tradicional do Brasil, mas chegou ao máximo nível de responsabilidade e aplicou planos de alta eficiência social.

Um dos colegas perguntou se era correto premiar alguém que se jacta de nunca ter lido um livro. O professor manteve sua calma e o olhou assombrado. Talvez saiba que essa jactância de Lula não consta em atas, ainda que seja certo que não tem título universitário. Certo também é que, quando assumiu a presidência, em 1° de janeiro de 2003, levantou o diploma que os presidentes recebem no Brasil e disse: “É uma pena que minha mãe morreu. Ela sempre quis que eu tivesse um diploma e nunca imaginou que o primeiro seria o de presidente da República”. E chorou.

“Por que premiam a um presidente que tolerou a corrupção?” – foi a pergunta seguinte.

O professor sorriu e disse: “Veja, Sciences Po não é a Igreja Católica. Não entra em análises morais, nem tira conclusões apressadas. Deixa para o balanço histórico esse assunto e outros muitos importantes, como a instalação de eletricidade em favelas em todo o Brasil e as políticas sociais”. E acrescentou, pegando o Le Monde: “Que país pode medir moralmente hoje outro país? Se não queremos falar destes dias, recordemos como um alto funcionário de outro país teve que renunciar por ter plagiado uma tese de doutorado de um estudante”. Falava de Karl-Theodor zu Guttenberg, ministro de Defesa da Alemanha até que se soube do plágio.

Mais ainda: “Não desculpamos, nem julgamos. Simplesmente não damos lições de moral a outros países”.

Outro colega perguntou se estava bem premiar alguém que, certa vez, chamou Muamar Kadafi de “irmão”.

Com as devidas desculpas, que foram expressadas ao professor e aos colegas, a impaciência argentina levou a perguntar onde Kadafi havia comprado suas armas e que país refinava seu petróleo, além de comprá-lo. O professor deve ter agradecido que a pergunta não tenha mencionado com nome e sobrenome França e Itália.

Descoings aproveitou para destacar Lula como “o homem de ação que modificou o curso das coisas”, e disse que a concepção de Sciences Po não é o ser humano como “uns ou outros”, mas sim como “uns e outros”. Marcou muito o “e”, “y” em francês.

Diana Quattrocchi, como latino-americana que estudou e se doutorou em Paris após sair de uma prisão da ditadura argentina graças à pressão da Anistia Internacional, disse que estava orgulhosa que Sciences Pos desse o Honoris Causa a um presidente da região e perguntou pelos motivos geopolíticos.

“Todo o mundo se pergunta”, disse Descoings. “E temos que escutar a todos. O mundo não sabe sequer se a Europa existirá no ano que vem”.

Na Sciences Po, Descoings introduziu estímulos para o ingresso de estudantes que, supostamente, estão em desvantagem para serem aprovados no exame. O que se chama discriminação positiva ou ação afirmativa e se parece, por exemplo, com a obrigação argentina de que um terço das candidaturas legislativas devam ser ocupadas por mulheres.

Outro colega brasileiro perguntou, com ironia, se o Honoris Causa a Lula fazia parte da política de ação afirmativa da Sciences Po. Descoings observou-o com atenção antes de responder. “As elites não são só escolares ou sociais”, disse. “Os que avaliam quem são os melhores são os outros, não os que são iguais a alguém. Se não, estaríamos frente a um caso de elitismo social. Lula é um torneiro mecânico que chegou à presidência, mas segundo entendi não ganhou uma vaga, mas foi votado por milhões de brasileiros em eleições democráticas”.
Como Cristina Fernández de Kirchner e Dilma Rousseff na Assembleia Geral das Nações Unidas, Lula vem insistindo que a reforma do FMI e do Banco Mundial está atrasada. Diz que esses organismos, tal como funcionam hoje, “não servem para nada”. O grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) ofereceu ajuda para a Europa. A China sozinha tem o nível de reservas mais alto do mundo. Em um artigo publicado no El País, de Madri, os ex-primeiros ministros Felipe González e Gordon Brown pediram maior autonomia para o FMI. Querem que seja o auditor independente dos países do G-20, integrado pelos mais ricos e também, pela América do Sul, pela Argentina e pelo Brasil. Ou seja, querem o contrário do que pensam os BRICS.

Em meio a essa discussão, Lula chega a França. Seria bom que soubesse que, antes de receber o doutorado Honoris Causa da Sciences Po, deve pedir desculpas aos elitistas de seu país. Um trabalhador metalúrgico não pode ser presidente. Se por alguma casualidade chegou ao Planalto, agora deveria guardar recato. No Brasil, a casa grande das fazendas estava reservada aos proprietários de terras e escravos. Assim, Lula, agora, silêncio, por favor. Os da casa grande estão enojados.


Tradução: Katarina Peixoto

terça-feira, 27 de setembro de 2011

ESCOLA, DINHEIRO e MAIONESE - reportagem de Christian C. Cruz

"Sentada entre uma fonte adornada por uma bonequinha cor-de-rosa que espirrava água e um vigoroso cofre de aço com 1,50 m de altura, Silvia Alambert pôs as mãos nos quadris, fingiu cara de bedel e deleitou-se numa gostosa gargalhada quando eu lhe perguntei o que era um quadrante financeiro: "Ah, quer dizer que na infância você faltou às aulas de educação financeira, não foi?!" Foi. Eu devia estar jogando bolinha de gude.
Silvia Alambert ensina alunos a partir de 5 anos a lidar com o 'moolah'. Mas 'de uma forma lúdica' - Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE
Silvia Alambert ensina alunos a partir de 5 anos a lidar com o 'moolah'. Mas 'de uma forma lúdica'
sdfa
Secretária bilíngue de formação e "uma mulher que chegou a possuir 89 calças jeans ao mesmo tempo", mas hoje se diz curada, Silvia ensina crianças a partir de 5 anos a lidar com dinheiro. Sua empresa, The Money Camp, inspirada na matriz americana que ela foi conhecer em 2006 e da qual voltou fascinada, oferece programas de férias num acampamento no interior de São Paulo e módulos que podem ser adotados por escolas. Num e noutro, o objetivo é o mesmo: "Trabalhar no comportamento das pessoas em relação às finanças. Ensiná-las desde cedo a gastar direito e a poupar pensando no futuro". Silvia diz que atende "crianças com muito dinheiro, muito mesmo, famílias que mais têm dinheiro neste país" e também crianças sem poder aquisitivo nenhum, "filhos de faxineira, etc.". E a confusão mental da turma é enorme, independentemente do tamanho de seus fundos de derivativos futuros.
Exemplo: Em uma das atividades, chamada "Os ricos são.../Os pobres são...", as crianças são convidadas a completar as frases que batizam a brincadeira. "Elas respondem que os ricos são mais felizes, gananciosos, mesquinhos e têm mais oportunidades. E que os pobres são mais infelizes e mais doadores", Silvia conta, para logo em seguida concluir, estupefata: "Se eu acredito que ser rico é ser ganancioso, por que eu vou querer ser rico? Crenças desse tipo afetam demais a nossa vida financeira". Daí a importância de conhecer, entre os tantos ativos imponderáveis disponibilizados pela educação financeira infantil, o relevante quadrante financeiro, vulgarmente conhecido como "maneiras de ganhar dinheiro". Que são quatro, como se pode supor: sendo empregado, patrão, autônomo ou investidor. E o loser aqui, que desperdiçou tardes inteiras no quintal, só foi aprender o valioso conceito na beira dos 40 anos. Paciência.
Silvia não gosta quando perguntam se ela está ajudando a formar capitalistinhas. Ela acha o termo capitalista "muito pejorativo" porque vem sempre seguido da palavra "selvagem", e não se fala assim de criança. Para entender como funcionam as aulas fui visitar um colégio de classe média alta na zona central de São Paulo que introduziu o programa de Silvia como disciplina obrigatória no currículo dos alunos de 6 a 11 anos. A escola é muito asseada e protegida - não tem árvores derramando folhas pelo chão e de ponto nenhum se vê o céu. Boa parte do piso está coberta por um verdejante carpete de grama sintética. Atravessei o pátio, subi dois lances de escada e cheguei ao terraço quente onde acontecem as atividades da Money Camp. Os professores Rafael Soares e Thaís Nicacio, ambos formados em educação física, preparavam o começo da aula colando nas paredes os cartazes que "ajudam a reforçar os conceitos mais importantes". No meio da dúzia de frases, lia-se: "Eu entro no jogo do dinheiro para ganhar", "Eu ponho o dinheiro para trabalhar para mim", "Eu sou excelente administrador de dinheiro". As crianças, de primeira, segunda e terceira séries, corriam e pulavam num brinquedo de túneis e escadas de plástico que exibia cartazes ainda mais objetivos: "Proibido brincar de sapatos" e "Obrigatório uso de meias". Rafael falou alto para pôr fim à algazarra: "Todo mundo desce do brinquedo e senta aqui no chão. O último que chegar perde mula".
Mula é o dinheiro de mentirinha usado nas aulas - pedaços de cartolina recortados e com valor de face de 10, 20, 50 e 100. A palavra vem de moolah, uma gíria americana equivalente a "grana". Mas aqui o pessoal da Money Camp chama de mula mesmo, como a fêmea do burro, aquela que vive empacada. "Às vezes eu trago um painel com o ranking dos maiores ganhadores e perdedores de mula. Não é competição. A mula é uma gratificação dada quando eles fazem coisas legais ou dão respostas certas", explicou Rafael. Pela próxima hora e quinze, o professor recorrerá incansavelmente ao vocábulo "SILÊNCIO", em tom elevado e decidido, para atrair a atenção dos pequenos Warrens Buffets de sandálias Crocs.
A aula começou com uma revisão sobre as diferenças entre cartão de débito, de crédito e cheque. "O cheque é aquele que, se você usa e não tem dinheiro no banco, fica um mês na cadeia", adiantou-se um garoto. "Mas cartão de crédito é mais da hora porque tem mais dinheiro que o dinheiro", explanou outro. Rafael então repassou os textos das peças teatrais que estão preparando para o fim de ano (A Galinha dos Ovos de Ouro e O Rei Midas) e chamou a minha atenção para o fato de que "todo o conteúdo é transmitido assim, de maneira lúdica". Ele tinha um aluno lhe acariciando os cabelos e outro pendurado no pescoço quando me contou, aliviado, que finalmente descobrira um jeito cativante de apresentar o tema nodoso da aula seguinte: desvalorização de bens materiais. "Vou usar o mercado de carros." Ele se levantou, virou para a garotada e anunciou: "Hoje, para terminar, vamos falar de alavancagem. Para quem não lembra, alavancagem é quando você usa a energia e o tempo dos outros em seu favor. E em favor deles também".
Ficou mais claro na prática. Dois alunos foram separados do grupo. A um deles coube o papel de patrão. Ao outro, de saco de dinheiro. Os demais deram as mãos e fizeram um círculo representando as dificuldades que se levantam diante do patrão na sua busca pelo saco de dinheiro. Ao sinal de Rafael, o patrão irrompeu contra o círculo, mas as dificuldades estavam, digamos, coesas no intuito de atrapalhá-lo. Todos caíram uns sobre os outros como num jogo de rúgbi. Na segunda tentativa, uma das dificuldades abriu as pernas, o patrão passou por baixo e correu feliz para abraçar o dinheiro. Todos riram. "Nós somos amigos. Ele me pediu para deixá-lo passar porque quando eu for o patrão ele vai me deixa passar também", explicou a dificuldade participante do esquema. Na terceira vez, juntaram-se ao patrão dois funcionários. Fortalecida, a empresa facilmente esgarçou o círculo e chegou ao saco de dinheiro. "Isso é alavancagem. Em equipe fica mais fácil", consolidou Rafael.
Nos acampamentos da Money Camp, numa variante dessa atividade, um garoto na vez de trabalhador tem as pernas amarradas e tenta correr atrás dos colegas que usam óculos em formato de cifrão. Quando ele amealha muitos amigos de óculos (muito capital), senta numa cadeira de praia e, aposentado, é bajulado por eles. Segundo Silvia Alambert, quanto mais cedo uma criança recebe educação financeira, mais bem preparada ela estará para cuidar de seu patrimônio na vida adulta. "Se seguirem o programa todo, nossos alunos sairão do ensino médio verdadeiros Ph.Ds., prontos para enfrentar a realidade do mundo", regozijou-se. Ela não vê inadequação do assunto em relação à etapa do desenvolvimento da criança, porque, como disse o professor Rafael, "tudo é passado de maneira lúdica".
Levei essas ponderações ao psicólogo Julio Groppa Aquino, professor da Faculdade de Educação da USP. Ele comentou: "Não tem cabimento criança ter aula da tal educação financeira, como não tem cabimento ela ter aula de direção de automóvel, de sexo ou mesmo de participação política. E isso por uma simples razão: trata-se de práticas de adultos. Além do mais, elas terão uma vida inteira pela frente para se deparar com isso. Por que apressá-las, então? O que se ganha com isso? Por que não deixá-las em paz no tão breve dolce far niente da infância? O que perdemos ao fazê-lo?" Giovana Barbosa, gestora da Aliança pela Infância, uma ONG de nome autoexplicativo, detalha o que ganhamos: "Para cada dólar investido na infância, sete dólares são economizados em gastos sociais - prisões, hospitais, etc. Crianças menores de 12 anos não estão preparadas para receber esse tipo de informação. É o brincar que as fará preparadas para a vida adulta, não a introdução de temas adultos na infância". Educação financeira infantil, diz Giovana, pertence ao triste capítulo dos atuais concursos de misses mirins e dos antigos espetáculos de mini-Carlas Perez dançando na boquinha da garrafa. A pedagoga Pilar Manzano Borba salienta que o ser humano nasce com certa taxa de capacidade de adaptação. Com o uso, essa taxa vai diminuindo. "Se gastamos tudo na infância tentando ser adultos, o que vai sobrar quando, lá adiante, precisarmos e não tivermos mais desse poder de adaptação? Pode sobrar depressão", ela lamenta.
No ano passado, o então presidente Lula assinou um decreto instituindo a Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef), que, entre outras ações, prevê a adoção da matéria por escolas públicas no Brasil todo. Cerca de 400 colégios públicos em cinco Estados já estão nessa, por enquanto só no ensino médio. "Mas eu sonho com o dia em que a educação financeira chegará também ao ensino fundamental", segreda o administrador de empresas Álvaro Modernell, que atuou como colaborador do grupo de apoio pedagógico que formulou a Enef. Funcionário de carreira do Banco do Brasil, com 23 anos de serviços prestados, boa parte deles na diretoria de finanças, Modernell se licenciou recentemente para tocar a sua consultoria, a Mais Ativo$. Um expert em educação financeira para todas as idades, ele ministra mais de 90 palestras por ano. É também um best-seller no tema. Seus oito livros que ensinam crianças a fazer reservas e gastar com responsabilidade já venderam mais de 100 mil exemplares. "Não porque sejam maravilhosos, mas é que a demanda por esse tipo de informação é muito grande", ele afirma, com sinceridade. Modernell gosta de dizer que aborda a educação financeira infantil sempre de "maneira humanista", passando valores como amizade, ética e família.
Em O Pé de Meia Mágico, por exemplo, ele conta a história de dois irmãos gêmeos que "eram muito felizes, mas cada um a sua maneira". Marino vivia imaginando o que seria quando crescesse. Mariano só queria aproveitar o dia. Na página 4, ficamos sabendo que Marino tinha muitos e cada vez mais bonitos navios de brinquedo. Mariano, que provavelmente não faz ideia do que seja o quadrante financeiro, "tinha que brincar com qualquer coisa que servisse como barco, até latas velhas". A contracapa do livro informa que ele é indicado a crianças de 3 a 10 anos. Então perguntei a Modernell se, nessa idade, não é bom que a garotada seja capaz de usar a imaginação para transformar latas em navios, tocos de madeira em carrinhos e assim por diante. "É claro que sim. Eu sou gaúcho e na meninice fantasiava que os ossos do churrasco eram meus boizinhos. Só que isso aí é um livro infantil. Você querer se aprofundar demais é viajar na maionese."
Atolado em maionese, voltei a Julio Groppa Aquino, que recomendou: "Valeria a pena nos questionarmos por que queremos transformar os filhos num investimento. No caso da emblemática educação financeira, espero que os pais que tanto se esforçam em garantir uma formação desse tipo para seus filhos recebam, no futuro, o troco que merecem. Seus filhos talvez os tomem, quando velhos, como um investimento sem rentabilidade alguma"."
sdD

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Atos contra a corrupção? Sei.....

Atos contra a corrupção são como as manifestações pela paz. Sem encontrar quem seria a favor da violência, tais manifestações saciam a consciência das carolas e a indignação alienada das classes mérdias. Gabando-se de seu protesto, esses mesmos que clamam contra a “corrupção dos políticos”  são os primeiros a se posicionarem contra greves e movimentos que põem em xeque o direito de propriedade. Marcados por um conservadorismo que faz par à “marcha com deus pela família...”, os recentes atos contra a corrupção atualizam o golpismo esposado pelos pequenos grupos que anseiam controlar o imaginário de toda a sociedade. Mas a vida é dura e quem está na rua, cá embaixo, pode até não ver direito – quem veria? – mas tem outra perspectiva:  se  não conflitante, ao menos refratária aos áudios e às imagens dos donos.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

AMÉLIA RABELLO

dfasdas
Quem procura apreciar canções e sambas bonitos e bem interpretados deve ouvir urgentemente “A delicadeza que vem desses sons”. Sobre esse trabalho, há textos tão informativos quanto interessantes nos ‘links’ abaixo.
 
ffsa
dds
Caetano Veloso escreve sobre disco de Amélia Rabello
s
"Santa Voz", de Paulo C. Pinheiro com Baden, "Tempo Perdido" (Ataulfo Alves) e "Alma Vazia", de Roque Ferreira, são as que mais me tocaram nesta primeira audição.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O peso dos "impostos" sobre a sociedade

A tigrada do "mercado", não bastasse estabelecer o consenso sobre o que o Banco Central deve ou não deve fazer com a taxa SELIC, não chegasse o poder objetivo que lhe garante a prerrogativa de credora, conta com a superficialidade da incessante busca "jornalística" pelo alarme  fácil. Exemplar a esse respeito foi o entusiasmo diante da quebra do "impostômetro" - "relógio" que apontaria o montante de tributos arrecadados pelas esferas municipal, estadual e federal do Estado Brasileiro, patrocinado pela desinteressada Associação Comercial de São Paulo - ao atingir tantos trilhoes de reais. Dizer que o brasileiro paga impostos demais informa pouco. Inserir na sequência - do máximo de aprofundamento sobre o tema a que uma rádio chega, comparando a carga tributária nacional (alta, 35% do PIB) com a de outros países -inserir na sequência comentário político sobre algum fato ou suspeita de corrupção é artifício malandro que garante: aproximação do veículo com o contribuinte, mostrando tendenciosamente à fonte  o destino do tributo;  aparência de clareza; simulacro de agilidade e,  objetivo não declarado, a ocultação da realidade e dos interesses que estão por trás do discurso fácil do "país dos impostos". Sobretudo as rádios - Joven Pan, Bandeirantes, CBN e ESTADÃO-"YES PI ENh" (ESPN) - jogam para a torcida, mal passando da chamada. Quando muito, abrem-se para a audiência comportadamente indignada: aquela que reclama dos "políticos incompetentes pagos com o dinheiro" do ouvinte. Os donos desse jornalismo sabem, mas não dizem, que apenas 5% do total arrecadado pelo Estado advém de transações financeiras. Escondem, pois têm ciência dessas informações, que a maior parte da receita tributária é oriunda dos """menos favorecidos""" (47%, vem do consumo; 27%, vem da folha de salários). Não dizem que lanchas, jatinhos e helicópteros são isentos de impostos (como o IPVA). Calam sobre o fato de que os mais pobres gastam 32% de sua renda com tributos, enquanto que os mais ricos, apenas 21%. Mostrar que países como os EUA e Canadá auferem 50% do montante de seu sistema taxando renda, propriedade e transações financeiras, enquanto que no Brasil essa participação não ultrapassa 25%, não seria de bom tom para o "mercado". O negócio é se utilizar do barulho para se isentar de pagar tributo; sobre transações financeiras para financiar o Saúde Pública, por exemplo............. Visando contribuir para o esclarecimento dessa questão, este PAINEL recomenda efusivamente a leitura do brilhante texto do economista João Sícsu, aqui: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5199.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A farsa do debate sobre a crise - também por L.G.Belluzzo

"O consenso em torno de certas ideias de dominância financeira -idéias que estão na origem da atual crise-- não seria possível sem a sua vocalização pela mídia. Não se trata de uma teoria conspiratória, estou dizendo que isso se deu através de um processo social em que as camadas dominantes impõem as idéias dominantes. A gente nunca pode perder essa dimensão da luta social; como ela se desenvolve e como maneja os símbolos, os significados, as palavras. Tome o exemplo da queda da taxa de juros brasileira. Isso produziu em certas pessoas (da mídia) uma estupefação; em algumas mais estupefação, em outras alguma indignação. As que ficaram mais estupefactas sempre ouviram o contrário, que era um perigo, era a ruína . As ideias , como dizia um autor do século XIX, tem uma força material enorme -- a força material das idéias dominantes. Norberto Elias, o sociólogo, dizia que é muito difícil você desconstruir um consenso como este. Daí o papel crucial da luta social e política. Ou você acha que a crise vai se resolver mecanicamente, por ela mesma? Não vai. É necessário formular alternativas. A solução dita ‘normal' é previsível, diz o economista americano Doug Henwood, que tem uma newsletter de nome muito interessante, 'Left Business Observer'. Henwood foi encarregado de escrever sobre Wall Street, antes e depois da crise. É muito fácil, asseverou. Antes da crise, Wall Street era o locus mais poderoso de interesses políticos, econômicos e sociais dos EUA. Depois da crise, Wall Street continua sendo o locus mais poderoso de interesses políticos, econômicos e sociais dos EUA. Um repórter que te entrevista sobre política monetária e ouve algo contrário a esses interesses, daqui e de lá, hesita em publicar; se publica o faz cheio de ressalvas. Esse jornalista foi emprenhado pelo ouvido, durante anos, para perguntar e ouvir sempre a mesma coisa. O problema da mídia no mundo inteiro é esse monopólio de algumas empresas que veiculam a visão dominante. Elas são a classe dominante. Nos anos 50 e 60 na Europa, por exemplo, você tinha uma mídia diversificada que expressava as posições políticas distintas. As pessoas liam o 'Avanti!', o 'La Unità'... Havia debate político. Hoje você não tem debate. O que você tem é uma farsa".

Luiz Gonzaga Belluzzo, no debate ‘Neoliberalismo, um colapso inconcluso', realizado ontem na PUC-SP. Fonte desta transcrição: http://www.cartamaior.com.br/

"A crise como ela é" - por L.G. Belluzzo

No crepúsculo dos anos 90, auge do prestígio dos bancos centrais independentes, o senador Phil Gramm, um dos corifeus da desregulamentação financeira, assumiu a presidência da Comissão de Bancos do Senado dos Estados Unidos. Semanas depois de sua posse, o senador Gramm, numa entrevista coletiva, anunciou que pretendia encerrar o sistema de audiências regulares dos presidentes do Federal Reserve nas comissões do Congresso sobre a condução da política monetária.
Essas audiências foram criadas em 1975 e transformadas em lei em 1978, mediante o Humphrey-Hawkins Act. Essa lei estabelecia os objetivos gerais da política econômica: “O pleno emprego, o crescimento equilibrado e a razoável estabilidade de preços”.
Mais importante é, porém, o ponto levantado por James Galbraith, filho de John Kenneth, em relação à natureza e aos limites da independência do banco central americano. “O Federal Reserve”, diz ele, “é uma criatura do Congresso. Ele está sujeito às leis dos Estados Unidos, incluindo aquelas que estabelecem os objetivos da política econômica. O Fed é uma agência independente, mas nos termos da autonomia estabelecida pelo Congresso. E o Congresso detém o poder, em última instância, de acordo com a Constituição para instruir o Fed, seja por lei, seja mediante resolução”.
Galbraith lamenta que, encorajados por figuras antidemocráticas que se reproduzem entre os economistas, os bancos centrais tenham concentrado sua atenção exclusivamente na questão da estabilidade de preços, abandonando quase que por completo suas responsabilidades nas questões relativas ao investimento, ao crescimento e ao emprego. “Essa atitude priva os governos nacionais dos meios necessários para promover outros objetivos.”
Muita gente sabe, mas alguns esquecem: as políticas monetárias da era liberal (entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX), aquelas que prevaleceram sob o padrão-ouro, tinham como único objetivo garantir o valor externo da moeda. O funcionamento desse regime monetário era compreendido, até mesmo pelos partidos trabalhistas e socialistas, como uma forma “natural” de governança dos mercados autorregulados, imune aos azares e reviravoltas da política. Mas, na verdade, o padrão-ouro era, sim, uma instituição política que exprimia a correlação de forças sociais prevalecente nessa etapa do capitalismo. Sua “reputação” dependia fundamentalmente da hegemonia das classes proprietárias e dominantes, que “confiavam” na ação protetora dos governos, então desobrigadas de cuidar do emprego e dos salários das classes subalternas.
Os anos 20 e 30 do século passado foram sacudidos pela presença cada vez mais incômoda das massas assalariadas e de seus interesses na esfera política. Karl Polaniy chamou esse momento de A Grande Transformação, título de sua obra maior. As políticas econômicas e sociais executadas na posteridade da Segunda Gerra Mundial buscaram equilibrar os impulsos da acumulação privada da riqueza e as aspirações dos homens comuns, a gente que batalha por uma vida digna e sem sobressaltos. Antes considerados criaturas da vagabundagem e da preguiça, o desemprego e a pobreza reconfiguraram seu conceito na consciência social: passaram a ser interpretados como distúrbios e injustiças nascidos das disfunções do mecanismo econômico. A arquitetura capitalista do pós-guerra permitiu durante um bom tempo a convivência entre estabilidade monetária, crescimento rápido e ampliação do consumo dos assalariados e dos direitos sociais.
O sonho durou 30 anos e, no clima sombrio da Guerra Fria, as classes trabalhadoras do Ocidente desenvolvido gozaram de uma prosperidade sem precedentes. Mesmo depois da derrocada de 2008, são cada vez mais frequentes as arengas dos economistas contra os “desvios da política”. Os porta-vozes da razão econômica e de seus poderes pretendem enquadrar, de novo, a sociedade na camisa de força do seu movimento autorreferencial. Sintoma de que as forças que controlam a economia contemporânea não estão dispostas a admitir contestações às suas pretensões de domínio e de submissão dos homens ao império da expansão desregrada.
Hoje, depois de décadas de predomínio do ideário mercadista, o cidadão atropelado pelas erráticas e aparentemente inexplicáveis convulsões da economia não acredita no controle de seu próprio destino. As medidas de combate às crises, por exemplo, são capazes de destruir suas condições de vida, mas o consenso dominante trata de explicar que, se não for assim, a situação pode piorar ainda mais. A formação desse consenso é, em si mesmo, um método eficaz de bloquear o imaginário social e promover a paralisia política, numa comprovação dolorosa de que as formas objetivadas da economia adquirem dinâmica própria e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.

Com Tirone, Frizzo, Luan e Felipão Lincoln no Avaí Pierre no Galo Scolari, palmeirense flerta com possibilidade de retorno à segundona

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A face do "mercado" diante da Política

Cínico o tom de denúncia que as grandes rádios, TVs e impressos fizeram ao corte de meio ponto da taxa de juros SELIC. De 12,5% ao ano, a taxa foi  para 12,0%, após a reunião de agosto do Comitê de Política Monetária do Banco Central. Agora, como antes, a taxa de juros brasileira continua sendo a maior do mundo. Cerca de 1/3 da dívida pública interna, da ordem de 1,7 trilhões de Reais, é atrelada a esta taxa. Os bancos – que são os maiores emprestadores de dinheiro ao Estado – abocanharão, em 2012, mais de 114 bilhões de reais somente com os juros desta dívida.  A mídia vê razões puramente "técnicas" nos níveis estratosféricos das taxas de juros. O aumento da  SELIC reduziria a inflação por dois motivos: como referência de outras taxas, pressionaria alta adicional nos já escorchantes crediários, por um lado;  reduziria a quantidade de moeda, por outro. O efeito combinado seria a menor procura por bens para uma mesma oferta, forçando a queda dos preços ao consumidor. Isso é correto quando não há empresas que repassam seu poder de monopólio para os preços, quando não há lucros abusivos, nem setores que mantém ou elevam suas margens após a elevação do custo financeiro causada, em última instância, pelas mesmas taxas de juros. Como se não bastasse a necessidade de se questionar a eficácia do aumento da SELIC como único remédio no combate à inflação brasileira, faltou, como sempre, explicitar ordens de grandeza. Faltou dizer, por exemplo, que o impacto na Seguridade Social do aumento do salário mínimo previsto para 2012 será de  R$ 13,3 bilhões, enquanto que os juros ‘técnicos’ – tão aguardados por meia dúzia de frescos que nunca foram à Praça da Sé nem desconfiam onde fica a Vila Dirce, são esses aí a quem chamam de "mercado" – esterilizarão R$ 114 bilhões – repito, R$ 114 bilhões – do orçamento. Interessante:  o que beneficia a minoria da minoria é tido como algo científico, ‘técnico’; mas o que ameniza a dificuldade de milhões, como o aumento do salário mínimo, é escandalizado como ‘populista’, como ameaça, como ‘política”. Ora, o ‘populista’ é pouco mais de 10% do ‘técnico’. Essa distorção atinge o ápice quando se “denuncia” que a maior autoridade da nação – a presidência da república – teria  exercido pressão ‘política’ sobre o banco público da república– o banco central – para  que este reduzisse a taxa de juros. Ora, não seria precisamente esta uma das prerrogativas essenciais de quem recebeu a maioria dos votos de milhões de brasileiros?!? Na TV, jamais fazem cara de nojinho  nem discursos contra a carga tributária quando é “o mercado” quem enche o rabo de dinheiro público, com o aumento da SELIC. Mas basta uma greve dos funcionários do serviço funerário - que recebem há 15 anos cerca de R$ 600,00/mês -  para os almofadinhas de sempre aparecerem do alto de suas tamancas exigindo prudência e ciência. É a Política a instância que se contrapõe à perversidade  da economia. Graças aos interesses em conflito,  ao voto, ao congresso, aos sindicatos e aos movimentos sociais que se fazem valer as demandas de quem não está do lado da banca. Superficiais denúncias de corrupção  -produzidas vorazmente pela grande imprensa - servem ao descrédito da Política que, se não tem se caracterizado pelo predomínio do espírito público, ao menos  restringe os impulsos egoísticos do “mercado”. Instalar o clima do “mar de lama” é  a bandeira da Direita - nojenta, assustada, apelando e com medo.