quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Seguindo o raciocínio (?) da imprensa gambambi, Pelé, Ademir e cia. nunca foram campeões brasileiros. Eeeeeiitaaaaaaaaa!!!!!!!

ASF
ANÁLISE DE UM ARTIGO CONTRA A UNIFICAÇÃO DOS TÍTULOS BRASILEIROS
ADFA
autor: Odir Cunha
fonte: http://blogdoodir.com.br/2010/12/a-analise-de-um-artigo-contra-a-unificacao-dos-titulos/


Atendendo ao pedido de uma pessoa muito especial – pela educação, pela sabedoria e pelo caráter – e muito importante para a unificação dos títulos brasileiros, analiso e respondo o artigo publicado ontem no blog de Marcelo Damato, que se identifica como “jornalista há 22 anos”.

Em primeiro lugar, quero dizer que dá credibilidade ter 22 anos de profissão. É um tempo razoável, que incorpora ao profissional experiência e conhecimento para perceber o que é essencial nos fatos.

Digo mais: quanto mais tempo de profissão, mais esta percepção é aguçada. Eu, que em fevereiro completo 34 anos como jornalista da grande imprensa (sem contar jornais de colégio e de bairro), descubro, a cada dia, o quanto ainda há a descobrir e como devemos ter uma postura humilde diante dos fatos, principalmente daqueles que ainda não dominamos bem.

Com o título “Querem parir um monstro”, Damato abre o seu texto vociferando:
Há atos tão graves e escandalosos que pouco importa se foram praticados por preguiça, por burrice ou por sem-vergonhice. Poucas vezes se viu um pleito tão descabido quanto esse que está para ser aceito, e, o que é pior, sob o argumento da reparação de uma injustiça. A CBF, que já fez tantas, deveria cuidar de sua história”.

Particularmente, acho que a reparação de uma injustiça é a maior motivação que pode existir para qualquer ser humano. Não entendo tanta ira contra quem está ao menos tentando agir com justiça. E se a CBF, segundo o autor, “já fez tantas” injustiças, mas está reparando uma, ora, no mínimo está se aprimorando. Ao promover a unificação dos títulos brasileiros a partir de 1959, a entidade está justamente deixando a “preguiça” de lado e cuidando de sua história.

Na seqüência, copio o texto de Damato, entre aspas, e respondo em seguida, em negrito. Tire suas conclusões:
“A Taça Brasil (1959-1968) foi criada não como um confronto dos melhores times do Brasil, mas como uma disputa de campeões estaduais, exatamente como sua irmã mais nova, a Copa do Brasil, nascida em 1989. Naquela época, tirando sete ou oito Estados, no restante o futebol era semi ou completamente amador”.
Ora, a Taça Brasil reunia os campeões estaduais. Nenhuma competição congrega, obrigatoriamente, os melhores times, mas sim os que se classificam para ela. O Mazembe, do Congo, certamente não é melhor do que Barcelona, Real Madrid, Milan e tantos outros times do mundo, mas se classificou para o Mundial porque o continente africano tem uma vaga, assim como a Europa. Uma competição apenas com os melhores talvez só tivesse times da Europa e da América do Sul, mas aí não seria um Mundial.
“Nos dez anos de existência, passaram pela Taça Brasil as seguintes equipes: Rabello, Guanabara, Defelê e Cruzeiro do Sul, de Brasília (DF), América, de Propriá (SE), Perdigão, de Videira (SC), Fonseca, Eletrovapo e Manufatora, de Niterói (RJ), Paula Ramos, de Florianópolis (SC), Santa Cruz, de Estância (SE), Santo Antonio, de Vitória (ES), Metropol, de Criciúma (SC), Comercial, de Cornélio Procópio (PR), Olímpico, de Blumenau (SC), Siderúrgica, de Sabará (MG), e Rio Branco, de Campos (RJ), entre muitos outros que a maioria dos leitores certamente desconhece”.
Estes times tiveram o mérito de serem campeões de seus Estados. É importante destacar que a Taça Brasil, em seus dez anos de existência, nunca teve uma virada de mesa. Os campeões estaduais sempre garantiam a vaga, mesmo que tivessem menos prestígio do que outros de seu estado. Comercial (PR) e Siderúrgica (MG) foram campeões estaduais superando equipes de tradição como Coritiba, Cruzeiro, Atlético-MG. Conquistaram seu lugar na Taça Brasil pelo mérito esportivo, por que deveriam ser excluídas?

Por outro lado, se nomes curiosos, de times sem tradição, são motivos para anular um campeonato, então várias edições do Campeonato Nacional a partir de 1971 deveriam ser excluídas, pois atendendo aos pedidos do governo militar da época, o Nacional se inchou tanto que chegou a 96 clubes em 1979, a maior parte deles sem qualquer expressão técnica.
“Da Taça Brasil, São Paulo e Corinthians nunca participaram. Em compensação, o Metropol disputou quatro vezes, o Fonseca, três, e o Santo Antonio, duas.”
Claro! Justamente porque São Paulo e Corinthians nunca foram campeões estaduais de 1959 a 1968, época em que o futebol paulista era dominado pelo Santos de Pelé e o Palmeiras de Ademir da Guia, duas das melhores equipes que o futebol brasileiro já produziu. Da mesma forma que hoje, na Copa Libertadores da América, podemos ver os mesmos times da Bolívia ou da Venezuela e não vemos a maior parte dos times grandes brasileiros, já que no máximo cinco equipes do Brasil podem participar da competição. Da mesma forma, nem todos os grandes times da Alemanha, Itália e Inglaterra participam da Liga dos Campeões, pois é preciso conquistar a vaga antes.
“Num certo ano, Santos e Palmeiras se negaram a disputá-la e nada aconteceu.”
Este “certo ano” é 1968, última edição da Taça Brasil. A competição já estava perdendo seu lugar para o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, naquele ano organizado pela primeira vez pela CBD, e Palmeiras e Santos preferiram participar do Robertão. Se isto invalida todo o torneio, o Nacional de 1979 deveria ser invalidado, pois apenas Palmeiras e Guarani representaram o Estado de São Paulo naquela edição.
“Em termos de representatividade e dificuldade, a Taça Brasil era sem dúvida mais fraca até que o Torneio Rio-São Paulo.”
A importância do torneio não está relacionada com seu nível de “dificuldade”, mas sim com sua finalidade. Voltemos novamente ao exemplo do Mundial da Fifa para constatar que tanto a Libertadores da América como a Liga dos Campeões – e, provavelmente, até o Campeonato Brasileiro – têm um grau de dificuldade maior do que o Mundial da Fifa, no entanto o título deste último é muito mais cobiçado.
“Fica assim mais do que claro que o vencedor dessa competição não pode ser equiparado ao do Brasileiro.”
Não há como comparar competições de formatos e épocas tão diferentes. Esse é o chamado anacronismo, que o historiador deve evitar a todo custo. Como comparar a primeira Copa do Mundo com a atual, ou o primeiro Campeonato Paulista, ainda amador e jogado em campos fora das dimensões regulares, com o atual? No entanto, todas as Copas e todos os Campeonatos Paulistas têm o mesmo valor perante a história.

Aproveito para lembrar que o Genoa, campeão italiano em 1898, fez apenas dois jogos, e no mesmo dia, para chegar ao título, como em um desses festivais de várzea antes tão comuns em São Paulo. Pois este título é oficial, assim como o do ano seguinte, vencido pelo Genoa nas mesmas circunstâncias. Quem duvida deve conferir em qualquer lista de campeões italianos. É óbvio que era bem menos difícil ganhar um título nacional com apenas dois jogos, mas era o que se podia fazer à época, foi feito e está nos anais. Seria de uma tremenda injustiça comparar o título do Genoa com os atuais do Campeonato Italiano, não?
“O Torneio Roberto Gomes Pedrosa foi a primeira competição criada para reunir as maiores forças do futebol nacional. Mas em seus dois primeiros anos (1967-68) não era uma competição oficial da CBD. Quem a organizava eram as federações de São Paulo e Rio, com suporte das demais. O nome do torneio foi dado a um presidente da Federação Paulista de Futebol, morto pouco mais de uma década antes. Apenas em 1969, a CBD chamou para si a organização. Como a competição foi um sucesso, aí criou o Campeonato Nacional. Assim, do ponto de vista histórico, os únicos títulos que ainda sobrevivem a uma discussão são os do Robertão de 1969 e 1970.”
O autor se engana. Só a primeira edição do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, a de 1967, foi organizada pelas federações de São Paulo e Rio de janeiro. A partir de 1968 passou a ser de responsabilidade da CBD e ganhou também o nome de Taça de Prata. Quanto ao “ponto de vista histórico” do autor, é bem particular, já que tenta extirpar dez anos de história oficial e consagrada.
“Quando foi criado, o então Campeonato Nacional foi saudado como a primeira competição nacional digna desse nome. Quando o Atlético-MG venceu o Campeonato Nacional de 1971, foi proclamado o primeiro campeão nacional. Num país de 92 milhões de habitantes, não houve nenhum que tenha ido a público para dizer: “primeiro campeão, não!. O Atlético é o 15º campeão. Já houve dez campeões da Taça Brasil e quatro do Robertão!!”
Não é verdade. Em 1971 eu já tinha 18 anos e acompanhava o futebol com interesse e atenção. Sou testemunha de que o surgimento do Campeonato Nacional não invalidou os títulos brasileiros anteriores. Tanto é, que por muitos anos, a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa foram computados nos rankings de clubes que se fazia.

Até porque quem criou o Nacional foi a mesma CBD que criou tanto a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Uma competição representou a seqüência da outra. Quem melhor pode falar sobre isso é justamente a pessoa que criou estas três competições, o senhor João Havelange, presidente da CBD. E ele declarou, a mim, e também temos esse depoimento gravado, que a Taça Brasil e o Robertão foram criados para definir o campeão brasileiro, e que o Nacional representou o prosseguimento destas competições.
“E não foi só naquela época. Por mais de 30 anos, até o século 21, nenhum dirigente levantou a bandeira do reconhecimento dos títulos. Será que nos anos 70, 80 e 90, os presidentes desses clubes eram tão tapados que não enxergavam o óbvio ou são os atuais mandatários que agora se comportam como oportunistas? Se os dirigentes que viveram aquela época não consideravam o pleito justo, como seus sucessores, que viveram aquela época como crianças, podem ter outra visão?”
Nem uma coisa, nem outra. É preciso, repito, conhecer as circunstâncias em que o Campeonato Nacional foi criado para ter uma visão mais ampla da história do futebol brasileiro. O Nacional foi mais uma ferramenta de “integração do país” utilizada pelo governo da ditadura militar, como o Projeto Rondon e a Transamazônica. O mérito e o nível técnico acabaram ficando em segundo plano. Bastava ter um padrinho político para ter o time no Nacional. Um slogan ficou famoso: “Onde a Arena vai mal, mais um time no nacional. Onde vai bem, mais um time também”.

Esta filosofia populista tornou o Nacional o pior “campeonato brasileiro” já realizado no país, em todos os aspectos: média de público, qualidade dos jogos, prejuízo dos clubes, credibilidade… O nível técnico chegou a ser tão ruim, que dois times (Flamengo e Grêmio) chegaram ao título jogando apenas contra três times que hoje disputam a Série A do Brasileiro.

Um detalhe: Oficialmente, o nome “Campeonato Brasileiro” só foi utilizado a partir de 1989. Antes foi Campeonato Nacional, Copa Brasil, Taça de Ouro e Copa União (em 2000 foi chamado de Copa João Havelange).
“Nunca é tarde demais para se fazer justiça”. Apesar da aparência benévola e verdadeira, essa tese é completamente falsa e mesmo malévola. É um conceito consagrado do direito de quase todo país e, em especial do Brasil, que permitir se busque justiça a qualquer tempo faz mais mal do que bem à sociedade. A maior prova disso é o rito da Justiça, cheio de prazos, dos quais basta perder um para que se perca todo o processo. E a justificativa dos prazos é que Justiça lenta demais não produz justiça ainda que chegue à decisão correta.
No Brasil, após três décadas prescreve qualquer crime e qualquer direito, exceto o da aposentadoria às vítimas da ditadura militar. O atual processo foi aberto há poucas semanas, de 40 a 52 após as conquistas. E, como já foi dito, as competições aconteceram há mais de 40 anos. A grande maioria da população brasileira nem era nascida quando se jogaram essas competições. Se o princípio do “nunca é tarde…” fosse válido, os descendentes de índios já teriam se recuperado a posse de todas as terras do Brasil, o governo brasileiro estaria completamente quebrado tal o volume de indenizações que teria de pagar aos descendentes de escravos pelos males horríveis que se cometeram contra eles ao logo de mais de dois séculos. Assim, a causa não tem mérito nem oportunidade.”
Ora, a grande maioria da população brasileira nem era nascida quando quase tudo aconteceu na história do País, e nem por isso a história deixa de existir. E não há mesmo como contrariar essa jóia da sabedoria popular: Nunca é tarde demais para se fazer justiça. Não há como admitir, em hipótese alguma, que fazer justiça seja prejudicial para a sociedade.
“Os maiores perdedores dessa decisão, caso ela saia mesmo, serão o futebol brasileiro e os clubes aparentemente beneficiados por ela. Pois, de agora em diante, estarão condenados de ficar explicando como chegaram a uma decisão tão esdrúxula.”
Os maiores ganhadores dessa decisão são o futebol brasileiro, representado em seu período de maior arte, talento e esplendor, e os craques inigualáveis de uma época que dificilmente se repetirá. O que pode valer mais do que um sorriso de gratidão e felicidade de um Djalma Santos, de Pelé, Ademir da Guia, Marco Antônio, Tostão, Afonsinho…? O mundo reconhecerá a nobreza e o valor desta atitude elogiável da CBF, não tenho a menor dúvida.

Nenhum clube “ganhará” nada que já não tenha conquistado em campo – em jogos difíceis, brigados, de um tempo em que o jogador de futebol era, mais do que um profissional, um herói. E não são estes clubes e estes jogadores formidáveis que serão “condenados” a ficar explicando nada. Já deram, com sua arte, todas as respostas a quem ama o futebol. Condenados a padecer na inveja e na raiva estarão aqueles que se colocarem contra a justiça e o mérito esportivo.
“Por fim, só para provocar, por que o Santos não pediu a Taça de Bolinhas no momento em que foi anunciada? Afinal, já não era penta?”
Não posso responder pelo Santos, mas acho que nem todos os clubes estão interessados em taça de bolinhas, muito menos em rankings. O reconhecimento da história é o maior troféu que se pode pretender.
“A Taça Brasil e o Robertão merecem ser reconhecidos como são. Como torneios pioneiros, precursores de competições que vieram para ficar. Não se pode dizer que o pai e o filho são a mesma pessoa.”
Em apenas três linhas, um mar de contradições. Taça Brasil e Robertão estão realmente sendo reconhecidos como são: competições cujos vencedores eram os campeões brasileiros. Assim como foi campeão brasileiro o vencedor do Campeonato Nacional, da Taça de Ouro, da Copa Brasil (não esta atual), da Copa União, Copa João Havelange e Campeonato Brasileiro. Se desde 1971 o campeonato mudou de regulamento todos os anos, até 2004, quais as competições que vieram
“para ficar”?

O pai e o filho não são a mesma pessoa, mas sem o pai não há o filho. Este é o princípio básico da evolução histórica. Um fato puxa o outro, uma situação permite outra e assim a humanidade evolui. Sem a Taça Brasil não haveria o Torneio Roberto Gomes Pedrosa/ Taça de Prata e o que veio a seguir.

Todas estas competições eram oficiais segundo a CBD, entidade que governava o futebol brasileiro, tinham regulamentos definidos, reuniram times e jogadores memoráveis, atraíram multidões aos estádios, movimentaram toda a imprensa esportiva do país (incluindo o cinema, através do Canal 100) e, acima de tudo, tinham o mesmo objetivo: definir um campeão brasileiro único, que representaria, como representou o País na Copa Libertadores da América.

Brigar contra essa realidade é uma luta sem nexo e sem causa, pois a justiça está ao lado dos primeiros e eternos campeões. Ao contrário do que pensa o autor do artigo, justiça não é um produto de supermercado que perde a validade com o tempo. Justiça é um objetivo que deve ser perseguido por toda a vida, e além dela, se possível.

Nenhum comentário: