terça-feira, 16 de novembro de 2010

"Besouro, na mão, mata um..."

Nas asas do besouro // Zunzum na capoeiraPor: Lauro Lisboa Garcia - O Estado de S.Paulo
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O ESTADÃO parte 1 parte 2

Quem acompanha a carreira do poeta e compositor Paulo César Pinheiro sabe que Besouro Mangangá, lendário capoeirista baiano, o fascina desde jovem. No antológico samba Lapinha (1968), sua primeira de mais de cem parcerias com Baden Powell (1937- 2000), Pinheiro emprestou o refrão de Besouro, também compositor, entre outras façanhas.
Em 2006, depois de citações esporádicas do personagem em várias canções, Pinheiro marcou sua estreia no teatro com o memorável musical Besouro Cordão de Ouro. Os temas da peça agora chegam ao CD, com Capoeira de Besouro, lançado pelo selo Quitanda, que tem direção artística de Maria Bethânia, nascida na mesma cidade de Besouro, Santo Amaro da Purificação.
Se Baden foi responsável por colocar o berimbau no mapa-múndi nos anos 1960 com seus afro-sambas em parceria com Vinicius de Moraes (1913-1980), Pinheiro agora faz algo igualmente significativo, renovando a música de capoeira e dando continuidade à iniciativa do parceiro.
"Ele foi o primeiro a mexer com essa história mais claramente", diz o poeta. "Com essas músicas tentei botar um foco maior nessa manifestação, que é conhecida mundialmente, mas está sempre nos guetos. Estou tentando fazer com que isso ganhe uma luz maior em cima e se espalhe mais no exterior e entre os nossos compositores. Que eles se voltem um pouco mais pra essa raiz forte, que são esses toques, muito bonitos, muito bem feitos."



Parte do resultado pretendido por Paulo César Pinheiro - para que o interesse pela capoeira faça brotar dela uma música menos primitiva - de certa forma já vem acontecendo, a partir de seus temas compostos para a peça Besouro Cordão de Ouro, que teve direção musical de sua mulher Luciana Rabello. Alguns deles - Toque de São Bento Grande de Angola, Toque de São Bento Pequeno e Toque de Santa Maria - já estão nas rodas de capoeira de várias partes do País, antes de sair no CD Capoeira de Besouro, transmitidos na melhor tradição oral. "Tantos capoeiristas viram a peça tantas vezes, que aprenderam as músicas. Os meninos que jogam capoeira na peça também estão sempre nas rodas e levaram essa música pra lá", observa o autor. É o Besouro, que tinha uma aura mágica, provocando zunzum.


No CD Pinheiro reuniu as dez canções feitas para o musical, mais quatro que não entraram por não se adequarem ao tempo de duração da montagem e um samba de roda. Para o autor, o grande barato da peça dirigida por João das Neves era "o mistério de Besouro ser o personagem principal sem existir", ou seja, ele nunca aparece em cena, mas sua presença paira no ar. A mesma sensação se tem no CD, uma vez que as canções não perderam a força pela ausência do componente cênico.
Na instrumentação, tanto na peça como no CD, ele procurou a simplicidade das rodas de capoeira. "O único instrumento harmônico é um violão, às vezes um cavaquinho. Queria que o berimbau fosse o condutor, o eixo principal da história. Então chamei o maior craque deles, Mestre Camisa, o sujeito mais importante que a capoeira tem no mundo hoje." Ouvindo discos de capoeira, Pinheiro passou a compor em cima dos toques, "por isso ficou muito bem amarrado". O violão de Maurício Carrilho atua como um terceiro berimbau harmônico. Camisa achou espantoso.
Congada e maracatu. O próximo projeto para teatro musical de Pinheiro já está pronto, só aguardando patrocínio para a montagem, que também será dirigida por João das Neves. Com música baseada na congada mineira e numa canção de Pinheiro em parceria com Sérgio Santos, do disco Áfrico, Galanga Chico Rei conta a rica história do Rei do Congo, por quem o poeta se encantou tanto quanto Besouro Mangangá.
Depois da capoeira e da congada, ele tem planos de se aprofundar em trabalho semelhante sobre o maracatu, fechando o círculo em torno dos três eixos fundamentais da cultura afro-brasileira: Bahia, Minas Gerais e Pernambuco. "Estou mexendo na reserva brasileira", diz Pinheiro, que é neto de índios e promove a mistura racial desde a década de 1970, quando Clara Nunes gravou a obra-prima Canto das Três Raças, parceria com Mauro Duarte.
É interessante como a música de Pinheiro vem caminhando para a realização cênica. De seu livro Atabaques, Violas e Bambus, a parte dos bambus foi criada em cima das lendas indígenas. O paraense Paulo André Barata musicou 14 poemas daqueles e vai encenar em Belém (Pará) uma "ópera popular amazônica". Em 2011 o mais produtivo compositor brasileiro lança o segundo romance em abril, mais um livro de sonetos e outro de contos.


Abaixo, extraído d’http://quintal-do-lobisomem.blogspot.com/, o elenco de primeira que faz parte deste importante trabalho:
PAULO CESAR PINHEIRO (voz)
MESTRE CAMISA(berimbau gunga)
VICTOR LOBISOMEM (berimbau viola)
MAURÍCIO CARRILHO (violão)
LUCIANA RABELLO (cavaquinho)
CELSINHO SILVA (pandeiro)
PAULINO
DIAS (percussão)
Além do coro com Amélia Rabello, Alan Rocha, Ana Rabello e Leonardo Barbudinho.

2 comentários:

Ana Paula Saab disse...

Coisa mais linda de se ver e de ouvir. De encher os olhos de quem gosta de capoeira. Bravíssimo.

Everaldo Efe Silva disse...

Dança, luta, canto, batuque, Brasil, atitude. E dá-lhe berimbau, gatona! Chero com saudade do teu!