quinta-feira, 29 de abril de 2010

A TÉCNICA dos 9,50% da SELIC.

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Os sábios do Banco Central, comandado por Henrique Meirelles, aumentaram ontem a taxa de juros básica (SELIC) para 9,5% a.a. As altas taxas de juros (*) – que ‘recompensam’ o setor financeiro privado na rolagem da dívida pública interna – contribuem para a extrema desigualdade de renda no Brasil, fato que é ofuscado na abordagem midiática sobre o tema.

A SELIC é utilizada como referência para a remuneração do capital acumulado pelos poucos que se encontram no topo da pirâmide social. Enquanto as pessoas com a ‘sorte’ de trabalhar formal ou informalmente têm uma renda que só cresce ao ritmo da inflação e do PIB ou nem ao deste ou daquela; os credores dos juros vêem aumentar geometricamente seus recursos (2, 4, 8, 16, 32, 64...) à medida que o tempo passa. Inexiste garantia de que a poupança gerada por esses juros converta-se em investimentos produtivos. É comum, a propósito, que esse dinheiro excedente volte ao circuito financeiro de valorização, pois esta opção implica ganhos maiores, praticamente certos e com menor esforço do que a aplicação produtiva.

O argumento de que o 0,75 ponto adicional sobre os 8,75 anteriores respeita um imperativo técnico-científico de contenção da ‘base monetária’ e de um ‘repique inflacionário’ encobre o caráter econômico-político da retórica e dos efeitos dessa medida sobre o conjunto da sociedade. Juros maiores mexem com a composição da renda por grupo social e com o ritmo de (des)emprego. Os rentistas são beneficiados e a massa que trabalha ou está desempregada perde, pois esta vê diminuir as suas chances de trabalho e/ou aumentar suas dívidas. Isso não se fala nos noticiários. Fala-se somente de uma decisão ‘técnica’, inacessível aos pobres mortais. Quando muito colocam os contestadores dos juros escorchantes como desprovidos da técnica, do saber científico, ou como malignos portadores de interesses 'políticos'.

Atribui-se à política o lugar da sujeira e à ciência, o da neutralidade e correção, o que só ofusca os significados das decisões públicas. Embalada na linguagem sisuda dos noticiários sobre juros e ‘humores do mercado’ (prazer, meu nome é Everaldo), a mídia reforça a baixa auto-estima dos expectadores-leitores não iniciados no assunto e amesquinha a Política, a Ciência e os fatos que lhes dizem respeito. É uma técnica.
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(*) O Brasil tem o recorde mundial dos juros.

2 comentários:

Ana Paula Saab disse...

Nossa! Excelente texto! Muito esclarecedor. O jornalismo econômico é para poucos, propositalmente, o que aumenta o fosso entre 'os que entendem' e 'os que não entendem'. Parabéns, Everaldo.

Everaldo F. Silva disse...

E, pior, os que 'entendem' se deparam com uma retórica atrelada a apenas uma matriz do pensamento econômico. Como se a economia fosse destituída de visões diversas sobre um mesmo fenômeno. Como se a economia não tivesse uma dimensão social. Como se a vida econômica fosse matemática pura.