sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A REPÚBLICA DOS ALCAGUETES - texto de Bruno Ribeiro


"Se você não fuma, ótimo. Entendo perfeitamente que sinta pena de mim por eu estar me matando aos poucos. Está no seu direito pensar que sou um fraco ou que não tenho caráter por gostar de cigarros. Entendo o seu ponto de vista. O que não entendo é uma pessoa tão inteligente como você compactuar com uma lei fascista criada pelo governo do Estado de São Paulo para segregar um grupo específico de pessoas.
A lei antifumo do senhor José Serra começa a ser aplicada nesta sexta-feira. Todos sabemos que ela contraria a lei federal - que permite a existência de fumódromos em bares e restaurantes. Mas, além desse claro atentado à liberdade individual, a lei tem vários pontos discutíveis. Um deles é a instalação do clima de denuncismo que havia desaparecido do País junto com a ditadura militar.
A partir de hoje, clientes poderão denunciar os donos dos estabelecimentos e os fumantes que desrespeitarem a proibição. Basta uma foto tirada de celular e pronto: está ressuscitada a figura abominável do delator. Teremos, novamente, que conviver com o fantasma do "dedo-duro" em ambientes que sempre primaram pela socialização, pela liberdade e pelo despojamento. O PSDB quer transformar São Paulo na República dos Alcaguetes.

Incapaz de recrutar e remunerar fiscais em quantidade suficiente para a observação da lei, o Estado pretende delegar ao cidadão comum a função de vigiar a vida dos outros. A abjeta medida poderá criar milhões de policiais à paisana e ninguém parece notar este absurdo. Um botequim poderá, por exemplo, ter as portas fechadas com três denúncias de descumprimento da lei antifumo. Mesmo que sejam denúncias forjadas por algum desafeto.
O constrangimento social dos tabagistas é imoral, já que o cigarro é uma substância legal e seu usuário não pode ser submetido a tratamentos discriminatórios. Há muitos anos que ninguém mais se atreve a fumar em hospitais, agências bancárias, repartições públicas, supermercados, aviões, elevadores etc. Para chegarmos a essa realidade, houve uma ação civilizatória, justa e irreversível, que colocou os fumantes em seus devidos lugares.

Por que então este comportamento autoritário do governo paulista? A conversa de que o Estado gasta os tubos com o tratamento de doenças provocadas pelo fumo é pura falácia. Bastaria que todo o dinheiro arrecadado com os impostos provenientes da venda de cigarros fosse aplicado corretamente e teríamos um atendimento médico de primeiro mundo. Esta é mais uma medida demagógica de José Serra na tentativa de ganhar o voto dos não-fumantes nas eleições presidenciais do ano que vem.
Nas propagandas que o governo tem veiculado na mídia, o médico Drauzio Varella responsabiliza os fumantes por poluir o ar de todo o Estado. Por que o doutor não revela as causas concretas do avanço de problemas respiratórios na população de São Paulo? Muitos dos que se dizem preocupados com o ar que respiram são os mesmos que não concebem a ideia de ir para o trabalho de bicicleta ou metrô. Tiram o carro da garagem para ir à padaria da esquina.

Somente na Capital, cerca de 800 carros novos são colocados diariamente nas ruas. São milhões de veículos emitindo monóxido de carbono e outros gases cancerígenos na atmosfera. Convido as pessoas que estão a favor da lei antifumo para iniciarmos juntos a campanha anticarro afim de proibir a circulação de automóveis. Afinal, não queremos todos o bem estar da maioria e a saúde coletiva?

Se você acha que a melhor saída é mesmo denunciar os fumantes ao poder público e multar os estabelecimentos, concorda com a ideia de que algumas liberdades podem ser suprimidas em nome de outras. É aí que mora o perigo. Pensando assim, você me autoriza a encontrar novas (ou antigas) formas de proibir certos atos de liberdade caros a você. Esqueça o meu cigarro. Pense no seu carro. E então, como ficamos?"

Bruno Ribeiro é compositor e jornalista (fonte do texto: O BOTEQUIM DO BRUNO)

Um comentário:

Ana Paula Saab disse...

Vigiar e punir. Eis o atualíssimo panóptico de Michel Foucault. Agora, outra questão: fabricar cigarros pode? Anunciar pode? Mas veja o lado bom, meu caro Zéphir: a lei permite fumar em cultos religiosos!!!! Imagine se até o pai de santo fosse proibido de fumar? Agora em vez de ir pro bar, a gente vai pro terreiro!