quarta-feira, 25 de março de 2009

SERVIÇO DE ELITE


(...)A rejeição ao nacional entre as elites cosmopolitas é a mais profunda desde o início do processo de industrialização. Atingiu, de forma devastadora, os sentimentos de pertinência à mesma comunidade de destino, suscitando processos subjetivos de diferenciação e desidentificação em relação aos ‘outros’, ou seja, à massa de pobres e miseráveis que ‘infesta’ o país. E essa desidentificação vem assumindo cada vez mais as feições de um individualismo agressivo e anti-republicano. Uma espécie de caricatura do americanismo.

A rejeição também foi mais ampla porque essas formas de consciência social contaminaram vastas camadas das classes médias: desde os ‘novos’ proprietários, passando pelos quadros técnicos intermediários até chegar aos executivos assalariados e à nova intelectualidade formada em universidades estrangeiras ou mesmo em escolas locais que se esmeram em reproduzir os valores e hábitos estrangeiros. Isso para não falar do papel avassalador da mídia, nacional e estrangeira.

É ocioso dizer que tais expectativas e anseios não são um desvio psicológico, mas deitam raízes profundas na desigualdade que há séculos assola o país. Produtos da desigualdade secular e daquela acrescentada no período do desenvolvimentismo, as classes cosmopolitas têm sido, ao mesmo tempo, decisivas para a reprodução do apartheid social e impiedosas na crítica do desenvolvimento nacional, a partir de um primeiro-mundismo abstrato e, não raro, vulgar.

Examinado à luz de um projeto nacional capaz de integrar os mais pobres, o cosmopolitismo das classes endinheiradas e remediadas revela o seu caráter parasitário e anti-republicano. Parasitário, sim, porque – amparado na internacionalização e na financeirização da riqueza e da renda dos estratos superiores, na diferenciação do consumo dos segmentos médios – suscita a modernização restrita da economia, com seu séquito de destruição de empregos e exclusão social.

A dimensão individualista e anti-republicana dessas formas de consciência, no entanto, vem produzindo a destruição do Estado, até mesmo de sua função essencial de garantir a segurança dos cidadãos. Isso para não falar no bloqueio sistemático – imposto pela fuga descarada das obrigações fiscais – da universalização das políticas de saúde, educação e previdência que, aliás, definem a ‘modernidade’ nos países realmente civilizados.

Há uma busca desesperada de refúgio no privatismo: escolas privadas, medicina privada e previdência privada. Não é à toa que os mais afoitos não mais conseguem distinguir o que é público do que é privado. Isso acentua a repulsa pelas contribuições para o fundo público por parte dos endinheirados ou daqueles que, por ora, apenas se candidatam a essa condição de superioridade econômica e social. Não se sabe quantos conseguirão dobrar o Cabo da Boa Esperança, mas pelo andar da carruagem é possível estimar que seu número não será significativo.

São quase vintes anos de baixo crescimento econômico, de evolução lenta ou mesmo estagnação dos rendimentos das camadas mais pobres e de bloqueio dos canais que permitiam ou prometiam a ascensão social.Tais tendências, já observadas na década de 1980, foram acentuadas pelas políticas propostas por Collor e depois empreendidas pelo professor Cardoso, a conselho das classes proprietárias locais e de seus aliados estrangeiros. Há quem se irrite com a menção do Consenso de Washington como origem e destino das políticas liberais na América Latina. A irritação é sintoma da miopia interessada. Basta olhar em volta e observar que as novas estratégias de ‘integração’ à economia mundial e de ‘modernização’ das relações entre Estado e mercado foram iguais em todos os países e produziram os mesmos resultados sociais desastrosos.

Cardoso manifestou preocupação com a situação de insegurança que atormenta os moradores das grandes e médias cidades brasileiras. O presidente bem poderia ver o documentário de João Moreira Salles, História de uma guerra particular. Ali são reveladas, de uma maneira brilhante e dramática, as raízes da criminalidade urbana. Não se trata exatamente da pobreza, mas da marginalização dos pobres e do bloqueio às oportunidades numa sociedade que propõe como valor maior o consumo ilimitado e a afluência.


O presidente sociólogo costuma brandir os dados do IBGE sobre a redução do número de miseráveis. É a ilusão do empirismo. Os dados não mostram as mudanças radicais nas relações econômicas e sociais ocorridas na periferia e nas favelas das grandes cidades. A atividade ilícita e o crime tornaram-se formas de sobrevivência e de busca de dignidade por parte de milhares de jovens abandonados pela sociedade e pela política oficiais.”


AUTOR: LUIZ GONZAGA DE MELLO BELLUZZO

Trecho do prefácio dedicado ao livro “DESENVOLVIMENTO EM CRISE – a economia brasileira no último quarto do século XX”, de Ricardo Carneiro

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