terça-feira, 10 de março de 2009

CENTRO NERVOSO


É o cruzamento movimentado de um centro nervoso, onde os que param de repente se esbarram nos que passam apressados. É um sinal que fecha, um carro que avança, alguém que xinga, que dá um chute ou um tapa nas marchas e contramarchas, pra conter ou descontar a agitação dos problemas.
Um é um homem, pelos trajes que veste. Não muito à moda, que possa aparecer demais, e nem muito fora dela, a ponto de desaparecer entre os coitados que vão e vêm, como operários desse vespeiro. Muito queriam estar nos lugares das rainhas, mas não tiveram sorte ou jeito ou tiveram todo o azar de nascer num cômodo acomodado pela ignorância. Fazem da paciência uma ciência da esperança que não chega lá, já que lá nem todos chegam.
O tal homem não é gordo, ainda que não possa ser chamado de magro. Também não é alto, que não possa rastejar por baixo de uma ocasião ou outra. É honesto, de acordo com as instâncias em que atua. Não é ator. Não que seja verdadeiro por ser o que é. Um homem mente em qualquer profissão. O fato que não se conhece e não aparece testemunha pra reconhecer é que ele pode simplesmente ter se abaixado por um trocado, uma jóia perdida, um recado anotado; pode ter desfalecido, desmaiado ou, mesmo que estivesse descansando, do cansaço que se abate sobre os porcos nos picadeiros.
O homem estava abaixado por uma dessas razões malucas e , quando tomou impulso para se erguer, alguém esbarrou-lhe no rosto, devolvendo-o ao chão. Agora, o homem caiu sentado. Está mais ridículo do que preocupado. Não devia ser assim. Porque, quando planta as mãos para auxiliar os pés, dois ou três dos transeuntes pisam-lhe feio, esmagando-lhe os ossos tortos no asfalto. O homem grita. Não é contra ninguém, ainda. Leva os braços à boca. O farol continua fechado, e ele respira aliviado. Tenta outra vez. Projeta-se para frente, como quem está crente que vai se levantar. Mas tropeça. Se põe a tropeçar e tropeça três ou quatro vezes, até que um joelho obscuro surge do nada e acerta-lhe em cheio o meio da cara assustada com tantas coincidências violentas. Ele cai. Mais uma vez, é sentado sobre o rabo. Aquilo que lhe foi posto entre as pernas não o ajuda em nada nesse suplício. Ele gira sobre as costas, junta mais uma vez as forças, que são cada vez mais fracas. Acocora-se, como um caipira que mastiga a paisagem num graveto, e, num ímpeto, lança-se para cima. É um instante. Logo está sendo posto abaixo pelo ventre de uma gestante que se dirige para o trabalho. Ele tem vergonha de reclamar com essa mulher. E com todas as outras, pois cinco ou seis delas lhe acertam a nuca com bolsadas pesadas. Ele pede perdão. É um ato falho. Pode ser que seja teimoso ou pense que é ousado por cair estarrecido naquele engarrafamento de gente que segue em sua urgência mesquinha e necessária à sobrevivência. São esses mesmos que continuam raspando e batendo no homem, cujas roupas em frangalhos dariam o que falar aos mendigos indignados. Sua pasta de segredos foi arrancada de seus dedos, trêmulos há muito tempo, permanecendo estendida na faixa pintada para os pedestres. Os pedestres continuam andando, como corpos celestes ou partículas de átomos, atônitos para atingir o lado oposto. É apenas um entroncamento, o que o homem destroncado quer alcançar, como qualquer outro. Mas hoje é o seu dia. Está levando porradas por todos os lados do rosto. Seu nariz sangra um jorro adocicado que o danado leva à boca. Os dentes balançam como se conversassem ou trepassem uns nos outros. São crocantes nas entrelinhas do homem, que então resolveu suplicar, no seu desengano, solidão, abandono, burrice ou tontura. Ele chora mais que grita; guincha mais que pede, enquanto seu olho incha a ponto de cegá-lo. E ele apita, como um barco naufragado, na apatia que chove no molhado. Ele está suado. Ofendido, os sentidos embaçados. Insiste em colocar-se em pé. Apenas para cair de quatro, ser mais uma vez chutado pra debaixo do tapete da pista ao sabor de uma boca de lobo. Do meio de um hematoma de arrepiar, o homem ainda lança um olhar embaçado, meio enviesado, pelas nuvens da tempestade que o cerca. Quando ele percebe que ninguém o percebe, coloca suas últimas forças para agarrar-se com unhas e dentes à sarjeta. Mas é tarde. O farol se abre...."

Autor: Fernando Bonassi
Nota: Transcrição, sem autorização do autor, de texto encenado em peça homônima no SESC CONSOLOÇÃO, em maio de 2006.

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